
Robin Jones Gunn - O Amor Pode Esperar
Srie Cris 9


Cris est decidida a curtir ao mximo o acampamento, mesmo sabendo que vai para trabalhar como conselheira de um grupo de meninas.
Mil sonhos passam por sua cabea: caminhadas pelo bosque, brincadeiras divertidas num lago banhado de sol e - quem sabe - pode at pintar um clima romntico  luz
do luar, com um novo amigo bonito e interessante. 
Tudo parece acontecer do jeitinho que Cris esperava, mas, apesar disso, o corao continua vazio. E ela v Deus tornar seus sonhos em realidade, mas com um toque 
de surpresa que s ele sabe dar. 
Ser que ela vai "sobreviver" aos acontecimentos dessa semana de aventuras? Seu romance com o conselheiro do acampamento vai dar certo? Quais os desejos que ela 
ter no corao no dia em que fizer dezessete anos? 

Ttulo original: Seventeen Wishes  Traduo de Elizabeth Gomes
Editora Betnia, 1998  Digitalizado por hezinhah
Revisado por deisemat
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Para Ethel Herr, que com sua vida me ensinou que, por mais que 
amemos, nunca estaremos amando demais. 
E para o grupo The Parts of Speech Critique, com recordaes 
maravilhosas dos anos em que nos sentamos  mesa de Ethel. 
Eu pensava que estivssemos aprendendo a escrever. Agora sei que 
aprendamos como o amor  quando se reveste de graa.
      
      
      Agir com Naturalidade
      1

      - Tem certeza de que falou para os meninos que vnhamos hoje  tarde? perguntou a ruiva Katie Weldon  sua melhor amiga, Cris Miller, enquanto subiam as escadas 
do prdio de apartamentos. 
      - Claro! Eu disse ontem ao Ted que sairamos logo aps o culto. Ele falou que levaramos cerca de uma hora para chegar aqui, respondeu Cris, que com suas pernas 
compridas subia dois degraus de cada vez. Ele deu instrues bastante claras. Tenho certeza de que  aqui. 
      - Nmero 12  l no final, apontou Katie. 
      A garota assumiu sua costumeira postura de atleta, e bateu  porta. Ningum atendeu. Ela fitou os olhos azul-esverdeados de Cris como quem pergunta: "E agora? 
O que  que vamos fazer?" 
      Cris mordeu o lbio inferior, olhando para o pedao de papel em sua mo. 
      - Sei que o endereo est certo. Bata de novo, mais alto. 
      Katie bateu mais forte e chamou: 
      - Ei, Rick! Douglas! Ted! Chegamos!
      Nenhuma resposta. 
      Cris afastou da testa o cabelo cor-de-noz-moscada e olhou, desconfiada, pela janela. Pelo que podia ver, no havia ningum. 
      - E agora, o que  que a gente faz, Katie? 
      - Vai ver que eles esto tentando passar um trote na gente. Eles sabem o quanto foi difcil voc convencer seus pais a permiti-la vir a San Diego. Provavelmente 
esto querendo nos assustar. Sabe como , n? os caras da universidade, tudo bicho granclinho, dando um susto nas meninas do colegial. Brincadeira velha. 
      Ela parecia to confiante em sua resposta, que Cris quase acreditou. Mas Katie parecer confiante era coisa normal. 
      - Ser que devamos procurar um telefone e ligar para eles? sugeriu Cris. 
      - Abaixe a voz! Se estiverem a dentro, podem ouvir o que estamos dizendo, comentou Katie. 
      - Pois acho que no esto aqui. Talvez tenham dado um pulo ao supermercado, ou algo parecido. 
      L embaixo, Cris notou uma quadra de cimento com uma piscina, e algumas espriguiadeiras em volta. 
      - Vamos at a piscina esper-los? 
      Katie examinou a situao, os vivos olhos verdes buscando achar algum sinal de vida no condomnio. 
      - No lhe parece estranho, sussurrou, no ter ningum aqui, num lugar que devia estar abarrotado de universitrios? 
      Cris comeava a ter arrepios. 
      - Vamos l para perto da piscina. Pelo menos no vamos ficar com jeito de gente perdida, de malas  porta deles. 
      - Ah ! Vamos dar um jeito de parecer bem naturais ao lado da piscina, de jeans e segurando as malas. Se algum de outro apartamento nos vir, vai pensar que 
somos meninas de rua e a chama a polcia, esbravejou Katie, seguindo Cris escada abaixo at a piscina. 
      - Ento vamos colocar as malas de volta no carro. 
      - Boa idia. Estou me sentindo uma rf. Por que nos deixariam assim, sem avisar? Eu achava que pelo menos um deles deveria ter lembrado de deixar um bilhete 
ou coisa parecida. 
      As duas garotas pararam junto ao porta-malas do carro de Katie, enquanto ela procurava a chave. 
      - Eu lhe entreguei a chave? 
      - Engraadinha! Claro que no. Pare de ficar mexendo a, e abra o porta-malas. 
      - No estou achando a chave. 
      Cris suspirou. 
      - Ser que deixou no carro? 
      As duas olharam pela janela da frente e viram a chave na ignio. Claro que tinham trancado todas as portas. 
      - timo, Katie! Genial! Agora, que  que vamos fazer? 
      - Calma, relaxe. Isso j me aconteceu antes. S preciso de um cabide de arame. 
      - E onde  que vamos arranjar o tal cabide? 
      - Vamos tentar aquela caamba de lixo l em frente. 
      Abriu o porto que dava acesso  rea do lixo e comeou a remexer. 
Cris ficou parada perto do carro, vigiando as malas, sentindo-se nervosa. Agora, com a Katie remexendo o lixo, realmente pareciam duas maltrapilhas. 
      A gente esperava curtir um fim de semana legal em San Diego, aproveitar o feriado para assistir ao estudo bblico dos "Amigos de Deus" e conhecer o zoolgico 
daqui; depois dar um giro pela cidade, relaxar um pouco, mas j comeou tudo errado. T ficando uma droga! 
      - Achei! gritou Katie, erguendo um cabide. 
      Uma casca de banana podre estava grudada no seu brao.
      - timo! Agora,  bom deixar o resto do lixo na caamba. 
      Katie sorriu vitoriosa, sacudiu fora a casca e endireitou o cabide. Animadamente, contou para Cris a histria da ltima vez em que trancara a chave dentro 
do carro. 
      - Eu estava no trabalho e tive de ir aoshopping, entrar numa loja de roupas e pedir que me dessem um cabide. Daquela vez calculei como faria a dobra na ponta, 
da maneira certa para alcanar a trava a. Ainda bem que meu carro  velho. O seu no tem essas travas antigas. A gente ficaria sem sada, se fosse no seu. 
      Cris desviara a vista para o lado, ciente de que agora pareciam mesmo essas meninas de rua que remexem lixo e roubam carros. 
      - D pra andar mais depressa, Katie? 
      - Estou quase conseguindo, disse, remexendo o arame com cuidado e manobrando a ponta dobrada sobre o boto de travar o carro. Tinha a lngua um pouco para 
fora, e apertava os olhos. 
      Cris teve a sensao de que Katie se divertia com um daqueles jogos em que a gente tem de manobrar uma manivela de metal, dentro de uma gaiola de vidro, para 
pegar um bicho de pelcia. Cris nunca se dera bem nesse jogo. J fazia tempo que desistira de tentar - poupava seu dinheiro. 
      Katie, no. Sempre enfrentava os desafios. A qualquer hora, em qualquer lugar. 
      - Est quase, suspirou ela, por entre os dentes cerrados, apertando o rosto contra o vidro do carro, implorando que a ponta agarrasse no boto preto. 
      - Ei! gritou uma sonora voz atrs delas. 
      Elas se viraram, surpresas. E mais surpresas ficaram ao ver que a voz era de uma moa mida, de origem oriental. 
      - Vocs so amigas do Ted? perguntou. 
      Estava com uma sacola de compras no brao e, aparentemente, viera a p, o que explicava por que as meninas no lhe ouviram os passos, ao chegar. Seus cabelos 
negros, compridos e sedosos, cobriam os ombros, e ela tinha um sorriso delicado. 
      - Sim! respondeu Cris, afoita. 
      E sentindo-se na obrigao de explicar o que estavam fazendo, acrescentou: 
      - Trancamos a chave dentro do carro e estamos tentando abrir. 
      Katie continuou relatando a aventura. 
      - Fomos at o apartamento dos meninos, mas no tinha ningum. Pensamos que talvez estivessem nos pregando uma pea; coisa deles. Como no saram para nos assustar, 
resolvemos guardar as malas no carro. 
      A moa ouvia-lhes atenta a explicao que, nervosas, iam dando. 
      - Foi a que descobrimos que havamos trancado o carro com a chave dentro, disse Cris. 
      Sbito, pareceu-lhe que estivessem agindo como duas colegiais inexperientes, matraqueando na frente de uma jovem universitria independente. Cris baixou o 
tom de voz e tentou parecer mais calma. 
      - E ento, voc sabe onde eles esto? 
      - No hospital. 
      Cris sentiu como se algum lhe tivesse dado um soco na barriga, expulsando todo o ar do pulmo. Conseguiu flego apenas para perguntar: 
      - Foi o Ted? Ele est bem? 
      - Foi o Rick, respondeu a garota. 
      O aperto no pulmo aliviou um pouco, e Cris suspirou. 
      - Rick?! perguntou Katie, parecendo que uma mo invisvel tinha acabado de agarrar-lhe o corao. Ele est bem? O que aconteceu? 
      - Tenho certeza de que vai ficar bem. Machucou o brao quando os rapazes se exercitavam na piscina hoje  tarde, Estavam dando saltos do trampolim, e o Rick 
dirigia uma espcie de competio. Ele torceu o brao. 
      - Tpico do Rick, disse Cris baixinho. 
      - E melhor irmos para o hospital, disse Katie, voltando com urgncia  tarefa de retirar a chave. Sabe onde ? 
      - Acho que no vai adiantar muito vocs irem. O Ted e o Douglas o levaram h mais de uma hora.  provvel que eles voltem antes de vocs conseguirem chegar 
l. 
      - Consegui! exclamou Katie, abrindo a porta e retirando a chave. Tem certeza que no devemos ir pra l? 
      - Podem ir, se quiserem. Mas acho que eles estaro de volta a qualquer momento. Ou vocs podem ficar aqui comigo e me ajudar a fazer o jantar. Eu disse a eles 
que faria uma tremenda macarronada para receb-los quando chegassem. 
      Cris virou-se para Katie, que ainda parecia preocupada, e disse: 
      - Do jeito que as coisas andaram esta tarde, acho que no devamos sair dirigindo por a, tentando encontrar o hospital. Acho melhor a gente ficar por aqui 
e dar uma mo ... parou, percebendo que no sabia o nome da moa. 
      - Meu nome  Stephanie, completou a outra. E voc deve ser Cris. Ouvi muito a seu respeito. 
      Cris sentiu um calor no rosto. 
      - E esta  a Katie, disse. 
      - Por acaso voc ouviu falar alguma coisa a meu respeito, digamos, talvez da parte do Rick? perguntou Katie. 
      Stephanie deu um sorriso delicado e misterioso. Seu rosto lembrava a Cris uma pequena e rosada flor de macieira. 
      - O Rick sempre tem muito a dizer sobre tanta coisa! Talvez ele tenha mencionado voc. 
      Cris olhou para Katie preocupada, imaginando como sua amiga receberia uma resposta assim. Um certo relacionamento surgira entre Rick e Katie no Desfile das 
Rosas, no Ano Novo, mas isso fora h cinco meses. De l para c, Katie desejava aprofundar aquela amizade, mas no estava conseguindo fazer com que Rick se tornasse 
mais ntimo dela. Este final de semana seria o teste. Cris notou que Katie ficara chateada ao saber que Rick no a havia mencionado da forma como o Ted falava de 
Cris. Mas Ted e Cris,  bem verdade, tinham quase dois anos de convivncia. 
      - Ento a gente fica, decidiu Katie, trancando a porta novamente, dessa vez com a chave na mo. 
      - Tragam as malas, disse Stephanie. Vocs duas vo dormir comigo hoje. Meu apartamento  o dez. Duas portas antes do manicmio. 
      - Obrigada por nos deixar dormir no seu apartamento, disse Cris. O Ted disse que nos arranjaria lugar com uma das meninas do condomnio. Estou contente por 
ter sido voc quem veio ao nosso encontro. 
      - Est bastante calmo por aqui, explicou Stephanie na volta ao seu apartamento. As aulas acabaram h mais de uma semana, e quase todo mundo j foi para casa, 
de frias. Eu trabalho no mesmo restaurante que os meninos, o "Blue Parachute". J contaram pra vocs? 
      Cris acenou que sim. Katie se sentiu um pouco por fora. Ouvira falar do "Blue Parachute", mas foi a Cris que lhe falou a respeito. 
      Stephanie abriu a porta do apartamento. 
      - Quando pegamos o emprego no restaurante, todos concordamos em ficar at junho, quando o pessoal que trabalha no vero vier nos substituir. Aqui estamos, 
anunciou, abrindo a porta e revelando um apartamento agradvel e decorado com gosto. Bem-vindas ao meu humilde lar. Fiquem  vontade. Minha colega de apartamento 
foi embora ontem. O quarto vazio  todo de vocs. 
      Cris e Katie levaram suas malas ao quarto  direita. A nica coisa que havia ali era um abajur no canto. 
      - O Ted no nos disse que devamos trazer sacos de dormir, cochichou Cris. 
      - Vou perguntar ao Rick se ele nos empresta o dele. Talvez a Stephanie tambm tenha um. 
      Uma msica clssica, de tom suave, flutuava pelo ar e, seguindo o som, as meninas chegaram  sala de estar, onde Stephanie ligara o estreo. 
      - Seu apartamento  bem legal, disse Cris, olhando o sof de listas azuis e brancas, os lustres cobertos com tecido florido azul e cor-de-pssego, e uma variedade 
de quadros bem interessantes. 
      Um dos quadros maiores chamou a ateno de Cris. Era uma jovem de longo vestido cor-de-rosa, rendado, o cabelo preso no alto, semelhando uma nuvem. A julgar 
pelo jardim, parecia vero, e a moa estava sentada num banco, olhando, sonhadora, para o mar. 
      - Amei esse quadro! exclamou. 
      A cena despertou algo dentro dela. Era a lembrana de outro tempo, outro lugar. Recordava um tempo em que as mulheres eram louvadas por serem femininas e sonhadoras, 
e um lugar em que se tomava ch e usava guarda-sis e longas luvas de renda, que elas calavam quando caminhavam pelo jardim. 
      Acho que nasci com um atraso de cem anos.
      - Obrigada, disse Stephanie, da cozinha, onde guardava as compras. Vocs querem tomar alguma coisa? Conhecem ch gelado de ginseng? 
      As meninas fizeram uma careta e foram com cautela at a cozinha. 
      - O que voc tiver est timo, disse Cris polidamente. 
      - Por acaso voc tem Coca ou Pepsi? arriscou Katie. 
      - No, mas tenho certeza de que os meninos devem ter. Estou com a chave deles. Querem ir at l pegar um refrigerante?
      - Tem certeza que a gente pode? perguntou Katie. 
      - Eles nem ligam. Me deram a chave porque ficam se trancando do lado de fora. As vezes aqueles caras parecem Peter Pan e os meninos perdidos, e acham que eu 
sou sua Wendy. 
      Cris gostava da Stephanie. Parecia muito delicada. Havia nela um ar cosmopolita que a deixava curiosa. 
      - Vamos l! Vamos invadir a geladeira deles. Vai ser divertido! exclamou Katie. 
      Stephanie entregou-lhes a chave. Quando Cris a introduziu na porta, olhou por cima do ombro para certificar-se de que ainda no tinham voltado. 
      - Voc no tem a sensao de que est invadindo a casa dos outros? perguntou  Katie. 
      - Claro, e estou me divertindo! Vamos colocar as cuecas deles no freezer, ou coisa parecida! 
      - Katie! 
      - O qu? Foi s uma sugesto. 
      - De onde voc tirou essa idia? indagou Crs, enquanto empurrava a porta e as duas corriam o olho pelo aposento. 
      - Olha s que baguna! exclamou Cris. 
      As duas espis entraram devagar e observaram o quadro todo. direita, na rea da cozinha, havia cadeiras de armar junto a uma mesa pequena com uma caixa de 
flocos de milho pelo meio. Sobre a mesa, havia tambm trs tigelas com restos de leite azedo. Uma Pepsi litro pela metade estava ao lado da caixa. 
      - Eu me sinto como a "Cachinhos Dourados", sussurrou Cris. 
      - Eu tambm, concordou Katie, rindo-se. Vamos ver onde dormem os trs ursos.
      - Katie! 
      - No vou mexer nas roupas deles, juro. Estava s brincando. Estou curiosa. 
      Passaram pela sala, que tinha um longo sof marrom, uma poltrona grande de tecido xadrez, um pequeno televisor equilibrado precariamente sobre uma estante 
feita de tijolos de cimento e tbuas, e um velho ba coberto de revistas de surfe, que servia como mesinha de centro. 
      - Muito elegante, brincou Katie. Decorao sempre popular, "relaxado, estilo antigo". 
      Cris notou a prancha de surfe do Ted no canto da sala, servindo agora para pendurar os casacos. 
      - Este aqui deve ser o quarto do Rick e do Douglas, disse Katie, olhando a porta entreaberta  direita. 
      Havia duas camas desarrumadas, junto s paredes. O cho estava coberto de roupas, livros, embalagens vazias de batatas fritas e um Frisbee* amarelo-non. Havia 
tambm uma bicicleta, atrs da porta, e um violo no canto, com o bon do time de beisebol Padres equilibrado na ponta. 
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      * Frisbee: um brinquedo que consiste de um disco de plstico que geralmente se joga na praia. (N. E.)
      
      - Como voc sabe? 
      - Fcil! O violo  do Douglas, e a bicicleta do Rick. 
      - O Ted tambm toca violo. 
      - , mas isso aqui no est parecendo quarto do Ted. Vamos l. Vamos ver como  o quarto de um rato de surfe! 
      Cris ficou indecisa, sem saber se acompanharia Katie ou no. Douglas e Rick estavam entre os rapazes que mais elegantemente se vestiam, que ela conhecia. Se 
viviam num lugar to bagunado e se apresentavam to bem arrumados em pblico, como seria o quarto do "Sr. Tranqilo"? 
      - Cris! Venha ver! 
      Cris olhou para dentro do quarto do Ted, mas no acreditou no que via. O quarto estava limpssimo. 
      - Voc realmente acha que este  o quarto do Ted? 
      - O que  isso? perguntou Katie, apontando para uma caixa esquisita no meio do quarto. 
      A poucos centmetros do cho, a grande caixa de madeira tinha uma superfcie ondulada e estava coberta com um lenol. Na ponta havia um cobertor dobrado cuidadosamente. 
      -  muito pequeno para ser colcho de gua. 
      Katie remexeu a substncia embaixo do lenol. 
      - Parece... puxou uma ponta do lenol e anunciou: e .  areia mesmo. No acredito! 
      Cris participou do exame e apalpou o colcho todo especial de Ted, que era mesmo uma grande caixa de areia. Katie comeou a rir. 
      - S o Ted para dormir numa caixa de areia, gatinho gigante! 
      - Aposto que  bastante confortvel, defendeu Cris de imediato. Depois de dormir na praia no Hava durante a competio de surfe, provavelmente ele se sente 
melhor sobre a areia do que num colcho comum.
      Katie virou-se para a amiga e sorriu, os grandes olhos verdes danando de alegria: 
      - Como eu lhe disse, s mesmo o Ted! 
      Cris notou uma srie de retratos e psteres na parede, atrs da cama. No centro havia o pster duma queda d'gua de Maui onde Ted, Cris, sua amiga Paula e 
seu irmo David tinham passado um dia no ltimo vero. Os outros trs eram fotos de surfe. Meia dzia de fotografias cercavam os psteres, todas tacheadas na parede. 
      - So todas de voc! Olhe a, Cris, todas so fotos suas! 
      Cris ficou surpresa. Em todos esses anos ela s mandara algumas fotos para o Ted, mas nunca imaginara que ele as guardasse ou as pusesse em lugar de tanto 
destaque. 
      - Essa no  sua foto da oitava srie? perguntou Katie, apontando para um retrato de tamanho oficial em cima das outras. 
      - Ah no, olhe s! E ainda do tempo do primeiro colegial! Eu no estava com cara de boboca? Devo ter mandado essa logo depois que nos conhecemos, quando fui 
para o Wisconsin. Ele foi embora de Newport na mesma poca, morar com a me dele na Flrida. 
      Katie olhou de perto a pequena foto, e disse: 
      - S posso dizer que voc melhorou com o passar dos anos. 
      Cris riu-se da sua expresso infantil na foto. Na poca, tinha cabelo comprido, quase at a cintura, que caa liso, natural. 
      - Esta aqui deve ter sido na poca em que voc se mudou para Escondido, quando eu a conheci. Olhe s como era diferente, com cabelo curto e franjas! Estava 
curto demais, na minha opinio. Gosto do seu cabelo do jeito que est agora. 
      Cris vinha deixando o cabelo crescer desde aquela poca, quando a tia a convenceu de cort-lo bem curto, antes do seu segundo ano do segundo grau. Agora, quase 
terminando o terceiro ano, estava passando dos ombros, e as franjas cobriam as orelhas. 
      - No acredito que o Ted tenha todas essas fotos. Nem me lembrava de ter tirado algumas. Mas desta eu me lembro, falou Cris, apontando para um instantneo 
dos dois na cachoeira havaiana do pster. 
      - Escute. Ser que eles esto chegando? 
      Cris ouviu passos pesados no corredor, fora do apartamento. As duas se puseram a escutar as vozes masculinas que se aproximavam. 
      - Voc acha que eles vo primeiro para o apartamento da Stephanie? 
      - Por qu? No sabem que chegamos. Parece que esto entrando. Rpido, esconda! 
      Katie correu para o armrio do Ted. No momento em que o abriu, um monte de roupas e bugigangas caiu, cobrindo-a com cales molhados e uma chuva de areia. 
      - Ai! 
      - Shh! Esto entrando! falou Cris. 
      Rapidamente Katie enfiou as roupas de volta no mvel e indagou: 
      - Que vamos fazer? 
      - Aja com naturalidade, disse Cris, totalmente parada no meio do quarto do Ted, as mos s costas e um sorriso nervoso estampado no rosto. 
      Ouviram abrir a porta da frente do apartamento. Um dos caras exclamou: 
      - Ei! Estava destrancada! Tem algum a? 
      - O que  que devemos dizer? perguntou Katie, baixinho. 
      Ficou ao lado de Cris, como se fosse seu reflexo no espelho, as mos s costas, cara de boba. 
      Cris notou pelos passos que os trs ursos estavam prestes a descobri-las. No havia como ter outra cara a no ser de boba. 
      - Pense em alguma coisa, Katie, rpido! 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      O Boneco
      2
      
      Ao perceber que eles vinham pelo corredor em direo ao quarto do Ted, Katie, espirituosa como era, gritou: 
      - Surpresa! 
      - Surpresa! gritou Cris tambm. 
      Viu Ted esbugalhar os olhos azul-prateados. Ele comeou a rir-se e, com dois passos de gigante, abraava-se a Cris, que lhe retribuiu o carinhoso gesto, a 
orelha colada ao seu peito, ouvindo-lhe de dentro o ressoar da risada. Ela ficou a imaginar se ele podia sentir-lhe o corao, batendo a ponto de quase saltar do 
peito. 
      - Mas que surpresa, gente! disse Ted, dando um abrao rpido em Katie. 
      Passou os dedos por seus cabelos loiros, queimados do sol. Eram curtos na frente e mais compridos atrs, com pequenas ondas que lhe tocavam a nuca queimada 
de sol. 
      Em seguida, Douglas e Rick tambm abraaram as meninas. Havia muitas explicaes e risos de simpatia, sobretudo por parte de Katie, quando viram o punho enfaixado 
e o brao de Rick na tipia. 
      - Ento, a Stephanie j sabe que vocs chegaram? perguntou Douglas. Ele era um pouco mais alto que Ted, mas no tanto que alcanasse os dois metros do Rick. 
      Vendo os rapazes juntos, Cris percebeu que Rick era o mais bonito dos trs. Seu cabelo escuro, ondulado, os olhos castanhos profundos e seu corpo de atleta 
tinham sido a obsesso de muitas garotas na escola, inclusive dela. No era de admirar que Katie no conseguisse tir-lo do pensamento. Em qualquer lugar, em qualquer 
situao, sua aparncia atraa todas as atenes. 
      Se Cris no o tivesse namorado por algum tempo e conhecido alguns aspectos menos agradveis de sua personalidade, talvez tivesse o mesmo olhar de admirao 
por ele com que Katie o fitava. Mas Cris escolheria o Ted ou o Douglas a qualquer hora, em lugar do Rick. Sabia que Katie teria de tirar suas prprias concluses 
sobre o assunto, como ela tinha tirado. 
      - Viemos arrombar sua geladeira  procura de um refrigerante, explicou Katie, os cabelos cor-de-cobre saltando com ela. S que resolvemos fazer uma inspeo 
nos quartos primeiro. Ficamos contentes em ver sua caixa de areia de gato to limpa e em ordem. S uma pergunta: cad o gato?
      Douglas comeou a rir-se de Katie, que apontava para a cama do Ted como se fosse um modelo para show de prmios. 
      O rapaz tinha uma aparncia asseada, com cabelos loiros cor-de-areia que pareciam sempre ter sido cortados naquele instante. Era atraente com sua cara de garoto, 
e aparentava menos que seus vinte anos. Era o mais afvel dos trs e conhecido pelos abraos, que distribua com generosidade. 
      - Pode experimentar, disse Ted a Katie. Deite-se nela e veja se no  confortvel. 
      Katie, uma personalidade "topa-tudo", deitou-se na cama de areia  frente de todos. Mexeu com as costas at obter o apoio perfeito. Cruzando os braos sobre 
o estmago, disse: 
      - Est certo, voc me convenceu.  a cama perfeita. Foi voc que inventou isso, Ted? 
      - No  to difcil assim, respondeu. Umas tbuas, uns sacos de areia e um cobertor. Acho que o Registro de Patentes no reconheceria nela um invento verdadeiro. 
      
      - Vocs no entraram no nosso quarto, entraram? perguntou Douglas. 
      As duas se entreolharam, e Cris disse:
      - Prometemos nunca contar para os outros! 
      - No falei que deveramos ter arrumado l primeiro? disse Douglas para o Rick, com o canto da boca. O Ted  que foi inteligente. 
      - O que voc quer dizer? disse Rick. Ele simplesmente enfiou tudo no armrio. 
      - Podamos ter feito o mesmo, disse Douglas. E assim causaramos uma boa impresso nas damas. 
      - Se eu quiser impressionar algum, disse Rick, todo orgulhoso, ter de ser com meus outros atributos, no minhas habilidades como "dono de casa". 
      - T na cara, murmurou Katie, baixinho. 
      - Olha que eu ouvi! disse o rapaz. 
      Cris olhou atenta para ver se havia alguma coisa entre eles. 
      - E com qual de seus grandes atributos voc vai comear? perguntou Katie, levantando-se da cama de areia. Talvez sua maravilhosa coordenao no trampolim? 
      - No. Minha habilidade de desequilibrar as garotas, replicou. 
      Enquanto falava, Rick deu um empurrozinho em Katie, com a mo que no estava machucada, e ela caiu de volta na cama; isto , caixa de areia. A moa deu uma 
olhada feia para ele, mas Cris notou que na verdade ela se sentia honrada de ter sido alvo de uma brincadeira dele. 
      - Ted, perguntou Katie, sentada na areia, posso mostrar ao seu colega de apartamento um punhado da sua cama? Bem na cara? 
      - Voc  quem decide. Eu vou ver se a Stephanie precisa de ajuda para fazer a macarronada. 
      - E eu vou junto, acrescentou Cris. 
      - Estou com vocs, disse Douglas. O que vocs queriam? Refrigerantes e o que mais? 
      Cris e Ted seguiram Douglas at a cozinha, deixando Katie e Rick a ss. Podiam ouvir a voz abafada de Katie mexendo com o rapaz e as risadas que se seguiam. 
At aqui, tudo bem.
      Douglas abriu a velha geladeira amarela, tirou uma garrafa de 7-Up e outra de Pepsi. Tudo mais que se encontrava na geladeira parecia encaixar-se bem na famlia 
dos fungos da penicilina. 
      - Vocs no limpam esse troo, no? indagou Cris. 
      - O Ted limpou, no foi mesmo? Umas duas semanas atrs, acho.  que todos vamos nos mudar daqui semana que vem. A a gente joga tudo fora. 
      Ted se achava de p ao lado da mesa, sacudindo a caixa de flocos de milho e olhando dentro. 
      - Vocs j encontraram o brinquedo? 
      - Acho que no, disse Douglas. E o que  dessa vez? 
      - E uma figura de plstico que se fixa na vidraa da janela e vai descendo, andando nela, respondeu Ted, enfiando a mo na caixa e sorrindo. 
      Dava para notar, pelo jeito como a covinha dele aparecia na bochecha, que ele encontrara o "tesouro" e estava muito contente. 
      - Olhe s, disse Ted, rasgando com os dentes o envlucro de plstico transparente e atirando a figura contra a janela.  um bonequinho. 
      E realmente o bonequinho andou! Uma fileira de minsculas ventosas grudou na janela lisa e l ficou por um momento. Mas logo depois se soltou, e a fileira 
seguinte se prendeu nela. Dava a impresso de "caminhar" no vidro, descendo. 
      - Legal, disse Ted, enfiando o tesouro no bolso do  short. Vocs esto prontos? 
      - Estamos, respondeu Rick, aparecendo na sala com Katie, prendendo-a por baixo do seu brao bom. Com a mo enfaixada, beliscou a bochecha da garota. 
      Cris teria ficado furiosa se o Rick a tivesse tratado desse jeito. Mas Katie dava sinais de que chegara ao cu. Quem sabe eles se daro bem, pensou ela. 
      O grupo saiu pela porta e Cris notou numa prateleira um vidro grande de maionese, cheio de moedas at a metade. Douglas lhe falara sobre o vidro. Eles juntavam 
dinheiro para um menino de dez anos, chamado Joabe, do Qunia, que eles apadrinhavam. Cris tinha visto uma carta que o garoto escrevera aos rapazes, aos cuidados 
do Douglas. Sabia tambm que o Douglas andava com uma foto do Joabe na carteira e mostrava para os outros como se fosse um orgulhoso irmo mais velho. 
      - Douglas, adivinhe uma coisa! disse Cris quando Ted trancou a porta e os dois seguiam, pelo corredor, atrs de Rick e Katie que lhe oferecia o ombro como 
suporte. Escrevi para aquela organizao atravs da qual voc se tornou padrinho do Joabe. Eu e minha famlia estamos apadrinhando uma menina de quatro anos do Brasil. 
O nome dela  Ana Maria. Nunca lhe agradeci as informaes que voc me deu. Ento, obrigada! 
      - Maravilha! exclamou Douglas, dando um rpido abrao em Cris. No  surpreendente como a gente pode ajudar essas crianas dando to pouco? 
      - Stephanie! gritou Rick  porta do apartamento dez. Abra a!  o Rick Maravilha. Vim receber sua ateno. 
      - , certo, disse Stephanie, abrindo a porta e fingindo-se indignada. Como se eu lhe desse alguma coisa, quanto mais ateno! 
      Rick soltou Katie e entrou no apartamento, continuando a brincar com a Stephanie, como se Katie no existisse. 
      - No vai dar um beijinho para sarar? perguntou, estendendo o brao enfaixado para ela com uma expresso de cachorrinho ferido no rosto bonito. 
      - No dia em que os bois voarem! retrucou Stephanie. 
      Ento Rick passou o brao sobre o ombro de Stephanie e entrou na sala, ainda implorando sua compaixo. 
      Ah no, cuidado, Katie! Quando voc coloca o coraao na beira do muro, nao demora muito para que ele tombe e espatife que nem ovo. 
      Katie no parecia incomodar-se. Foi at a cozinha e remexeu a panela de molho de macarronada, como se lhe tivessem pedido para cuidar dela. Cris admirou ainda 
mais a sua capacidade de recuperao. 
      - Trouxemos refrigerantes, disse Douglas, mostrando as duas garrafas a Stephanie antes de coloc-las na mesa. 
      - Quer que eu acabe de preparar o po de alho? Perguntou Ted, pegando a faca e fatiando a baguete a partir do ponto em que Stephanie havia parado. 
      - Claro, replicou a moa dando as costas para o Rick, com ar de desprezo, e foi para a cozinha, 
      - Cris, voc me ajuda a terminar a salada? pediu. 
      Ted, Stephanie, Cris e Katie trabalhavam juntos na pequena cozinha enquanto Douglas e Rick, sentados no sof, assistiam  televiso. 
      -  a segunda casa deles: minha tv, disse Stephanie para Cris, apontando os dois rapazes. Se voc quiser ateno dos rapazes do seu prdio, basta ser a nica 
que tem o canal esportivo da TV por assinatura. 
      - Vou me lembrar dessa, disse Katie, ajudando o Ted a embrulhar o cheiroso po no papel alumnio. 
      Abanou a mo como que para afastar o cheiro forte do tempero, e em seguida indagou em tom sarcstico: 
      - Tem certeza que ps alho o suficiente, Ted? 
      -  gostoso assim. Voc vai ver. Minha receita secreta. Manteiga, maionese e muito alho. 
      - E s trs mil calorias por fatia, acrescentou Stephanie com uma piscadela, ao ligar o forno e entregar uma assadeira a Katie para ela colocar o po.  bom 
mesmo. Acredite. O Ted j fez antes.  por isso que o papel de parede da cozinha comeou a descascar. 
      Embora soubesse que Stephanie estava s brincando, Cris olhou para o papel de parede. No havia nada de errado. Todos os "coraezinhos" estavam muito bem 
colocados. 
      Cris gostava do jeito como Stephanie usava figuras de corao para decorar a cozinha. Adorou principalmente a cesta em formato de corao, pendurada acima 
da pia. Fitas cor-de-pssego e azuis passavam pelos lados com um monte de flores de seda embaixo. Apreciava coisas floridas assim, e imaginou como seria divertido 
se um dia pudesse ter seu prprio apartamento e vir a decor-lo. 
      Um pouco mais tarde, quando sentaram para comer, resolveu que ela teria cadeiras de madeira de encosto reto, com almofadas de estampa florida  mesa da cozinha, 
do jeito da Stephanie. E serviria as visitas em pratos azuis e brancos, iguais aos da jovem. 
      Realmente o po estava delicioso, assim como a macarronada e tudo o mais. A conversa continuava animada. Tudo nesse encontro fazia Cris sentir-se adulta e 
aceita no crculo de amigos universitrios. Era totalmente diferente de ter dezesseis anos e morar em casa com seus pais e o irmo de onze anos. 
      Ah no! lembrou-se de repente. Prometi telefonar para eles logo que chegssemos.
      - Posso dar um telefonema? 
      - Claro, tem um telefone no quarto. 
      Cris entrou no quarto de Stephanie e fechou a porta. Sentiu- se mal por ter esquecido. 
      Quem atendeu foi sua me. Cris ento explicou rapidamente sobre o fato de os rapazes no estarem l, a chave trancada no carro, Stephanie e o pulso destroncado 
do Rick. Quando terminou, sentiu uma pausa desconfortvel no outro lado da linha. 
      - Srio, me, foi o que aconteceu e por isso no me lembrei de ligar antes. 
      - Ah, sim! Acredito em voc, filha.  que com tudo que anda acontecendo nas ltimas horas, no sei se estou preparada para todas as aventuras que voc certamente 
enfrentar at a hora de voltar para casa, amanh  noite. 
      - Me, respondeu Cris, esforando-se para passar  me a impresso de uma menina madura e responsvel, no precisa se preocupar com nada. Me desculpe por no 
ter ligado antes. Est tudo bem e tenho certeza de que o resto da viagem vai ser sem atropelos. Amanh eu ligo antes de sairmos de volta para casa. Sou muito grata 
por voc e o pai terem deixado que eu viajasse para visitar meus amigos. 
      - Bem, divirta-se, e procure se lembrar de tudo que falamos. 
      - Vou me lembrar, me. No se preocupe. Tudo vai dar certo. 
      Aps desligar o telefone, Cris permaneceu sentada na beira da cama de Stephanie por um momento. Sentia-se um pouco como o beb do grupo, onde todos j tinham 
seu prprio apartamento, menos ela e Katie. E os pais de Katie no s a tinham deixado fazer o passeio como at emprestaram o carro com o tanque cheio e disseram 
para ela se divertir. Katie no precisava ligar para avisar nada a eles. 
      Cris estava perfeitamente ciente do cordo invisvel, porm sempre presente, que a ligava aos pais. Quanto mais velha ficava, mais corda lhe davam, encorajando-lhe 
aos poucos a independncia, como nessa viagem a San Diego. Mas a corda invisvel ainda a mantinha atada a eles. Em situaes como esta ela tinha de te1efonar, avisar, 
e a corda lhe parecia muito apertada, amarrada em sua cintura. 
      De repente ela teve um pensamento ainda mais assustador. Logo, logo, vou fazer dezoito anos. Estarei na faculdade e serei independente como a Stephanie. Como 
ser que me sentirei quando a corda for cortada? 
      Resolveu ser grata por esse lao enquanto o tinha. Sentia-se segura, sabendo que a corda invisvel que a atava aos pais estava intacta e firme. Em breve estaria 
totalmente frouxa, perderia o n. 
      Parece que Katie no tem nenhuma corda a prend-la. Deve dar medo.  como se no tivesse certeza de que algum poder pux-la para perto, se ela for longe 
demais.
      Juntando-se aos outros, Cris ajudou a tirar a mesa e a enxugar a loua. Douglas lavava e Ted guardava. 
      - Veja como esto minhas mos depois que usei este novo detergente para loua! disse Douglas, numa voz fina, erguendo as mos cobertas de sabo, imitando a 
propaganda de televiso:  Que tal a limpeza? 
      Passou um dedo na parte externa de um dos pratos, continuando o seu "comercial". 
      - Espere. Tenho uma idia! disse Ted, pegando o prato que Cris estava enxugando. 
      Tirou o boneco do bolso e o jogou no prato. Ele comeou a descer pelo prato. 
      Douglas assoviou, aprovando. 
      - Excelente! Muito bom! Agora, experimente na geladeira. 
      Ted experimentou e o boneco andou de novo. 
      Mais assovios e vivas de Douglas. Cris entrou na brincadeira, aplaudindo tambm. 
      - A porta do forno, sugeriu Douglas desafiando-o. 
      Ele aceitou o desafio. 
      - Agora o verdadeiro teste: ele consegue andar no teto? 
      Ted jogou o boneco no teto. Grudou perfeitamente, mas no andou. Nem se mexeu. 
      Douglas se ps a vaiar. 
      - O que vocs esto fazendo a? gritou Stephanie da sala. 
      - So as olimpadas do boneco, disse Douglas. E nosso melhor atleta agora est parado. 
      - Eu deso ele, ofereceu-se Ted, puxando uma das cadeiras de almofadas floridas 
      - No pise nisso! ralhou Cris.  chique demais para pisar. 
      - E o que voc sugere? interveio Douglas. Esperar que a lei da gravidade resolva o problema? 
      Cris teve uma idia. Girou o pano de prato na mo e o jogou em direo ao teto, por pouco no alcanando o brinquedo. Mas o pano produziu um som alto, de chicote. 
      - Boa idia, disse Douglas, pegando outro pano na maaneta da geladeira e "chicoteando-o" no ar. Toma a, seu boneco! 
      - Errou, disse Ted, pegando outro pano e fazendo mais uma tentativa. 
      Antes que Cris percebesse o que se passava, viu-se no meio de uma batalha de panos de prato entre Ted e Douglas. 
      - Epa! Espere a! Como  que fui parar no meio de vocs? gritou, tentando romper o cerco. 
      No conseguiu. Eles a haviam cercado mesmo. 
      Comeou a devolver-lhes as "panadas", mas eles tinham mais experincia no assunto. De repente, ela enfiou as mos na espuma de sabo da pia. Com um monte de 
espuma branca na mo, olhou para Douglas e Ted, e desafiou: 
      - E agora, quem vai ser o primeiro? 
      Antes que Cris pudesse resolver a quem ensaboar, Douglas enfiou a mo debaixo da sua e empurrou o monte de espuma na garota. Um pouco dela ficou em seu nariz.
      Cris gritou e limpou a espuma dos olhos ainda a tempo de ver Douglas e Ted se congratulando, batendo as palmas das mos no alto. No momento que eles as baixaram, 
o boneco tambm desceu em cima da cabea dela. 
      - Tudo bem! disse Ted, tirando o brinquedo do seu cabelo. Boa tacada, Cris. 
      Naquele instante algum bateu  porta. Rapidamente Cris removeu o sabo do nariz, e nesse momento sete estudantes entraram no apartamento e cumprimentaram 
a todos. Cris tomou o pano de prato da mo de Douglas e terminou a limpeza, envergonhada por parecer to infantil na frente dessas pessoas. 
      - Est tudo bem? perguntou Douglas, puxando-a para um canto da sala. 
      - Acho que sim. Consegui limpar tudo? 
      - Quase. 
      Douglas pegou o pano e limpou com cuidado debaixo do canto do seu olho direito. Em seguida alisou em cima da sua cabea onde o boneco aterrissara. 
      - Novinha em folha, anunciou, e tomando-a pela mo, continuou: No fique acanhada. Venha conhecer o nosso grupo "Amigos de Deus". 
      Cris sorriu e cumprimentou as trs garotas e os quatro rapazes que tinham acabado de chegar. Tentou imaginar um jeito de gravar o nome de cada um. 
      Outra batida na porta, e mais duas garotas vieram juntar-se a eles. Uma era muito bonita. Tinha o cabelo loiro em permanente, e usava um batom bem vermelho. 
Foi direto ao Rick e logo compensou a falta de ateno do resto do pessoal para com ele. 
      Todos procuraram sentar-se, ou no cho ou numa das cadeiras da cozinha. Ningum disse que era hora de comear. Cada um se acomodou no seu lugar como se j 
estivesse acostumado. Cris notou que Ted havia desaparecido, e ela no sabia onde sentar-se. Katie estava do lado de Rick, no sof, com a loira do outro lado e as 
amigas perto dela. Douglas parecia estar no comando. Stephanie, sentada no cho, conversava com um dos rapazes. 
Cris encontrou um lugar vazio junto  parede ao lado da porta da frente. Sobreveio-lhe de repente a sensao de "estar sobrando", algo que sempre lhe acontecia. 
Enquanto se sentisse tomada desse sentimento, no conseguiria falar com ningum. Mas estava numa reunio de estudo bblico. Deviam conversar com ela. Todavia ningum 
a cumprimentou. 
      Ted voltou, trazendo seu violo e o de Douglas. Cada um puxou uma cadeira na frente da televiso, levando alguns minutos para afinar os instrumentos. 
      Mais trs garotas chegaram, e uma delas, usando camiseta da Universidade de San Diego, se acomodou ao lado da Cris. 
      - Ol! Meu nome  Beth, disse a jovem. 
      - Cris, respondeu ela. 
      - Prazer em conhec-la. Est nos visitando? 
      - Sim. 
      E foi s o que Cris conseguiu explicar, pois Douglas comeava a reunio. 
      - Estou contente em ver todos aqui esta noite. Como sabem, a maioria dos "Amigos de Deus" j foi embora de frias. Esta  nossa ltima reunio deste semestre. 
Acho que seria bom a gente passar algum tempo agradecendo a Deus pelas coisas maravilhosas que ele fez em nossa vida no ano que passou. 
      Ted comeou a dedilhar o violo, e Douglas se ps a tocar o corinho "Deus  maravilhoso". De alguma forma, Cris compreendeu que aquele era o corinho predileto 
do Douglas, pois ele dizia sempre "maravilha" para tudo. 
      Ela cantou com a turma toda, surpresa de ver tantos universitrios sentados ali, cantando de corao aberto para o Senhor. Um cara na sua frente mantinha os 
olhos fechados e os braos levemente erguidos, num gesto de louvor. 
      No dava para Cris explicar, mas, ao ouvir aquele primeiro corinho, com o Ted comeando a orar em seguida, todas as suas defesas caram por terra. As pessoas 
que se achavam na sala eram crists como ela. Todas pareciam estar ali para adorar a Deus. Esses universitrios eram irmos em Cristo. Mesmo que ela nunca mais os 
visse, iria passar a eternidade junto deles no cu. Sentiu-se includa na famiia de Deus. 
      Douglas passou a dedilhar outro cntico, que Cris no conhecia. Mas agora, em vez de sentir-se por fora, fechou os olhos e inclinou a cabea e se ps a escutar 
os outros cantarem: 
      
      Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram,
      nem jamais penetrou o corao humano 
      o que Deus tem preparado 
      para aqueles que o amam. 
      
      Durante duas horas, eles cantaram, oraram e conversaram sobre o que estava acontecendo na vida de cada um. Ento Douglas leu alguns versculos e falou sobre 
esperar em Deus e confiar nele com relao ao futuro. Todos se mostravam atentos ao que ele falava, sobretudo porque, a partir da semana seguinte, a maioria tomaria 
rumos diferentes, de regresso a casa. Poucos sabiam que futuro os aguardava. 
      Por fim, Ted encerrou com uma orao, e todos se puseram a conversar. Cris, aquecida pelo doce esprito do grupo, circulou pela sala e ficou conhecendo os 
que ainda no lhe haviam sido apresentados. Ela nunca se sentira to solta, to  vontade para tomar a iniciativa de conversar com os outros. Ficou surpresa de ver 
que no era assim to difcil. 
      - Quer vir tomar um caf conosco? perguntou Beth. Vamos sair para lanchar. Sua amiga Katie disse que vai conosco, e tenho certeza que a Stephanie tambm. 
      A animao que Cris sentira at ali esvaiu-se. Uma das coisas que prometera aos pais, no tocante a essa viagem, fora no sair depois que escurecesse. Agora 
parecia uma regra to tola! Se eles estivessem presentes, certamente veriam que esses jovens eram pessoas responsveis. Assim mesmo, se ela sasse sem lhes pedir, 
estaria quebrando sua palavra.
      Talvez pudesse ligar, explicar a situao, e eles entenderiam e lhe dariam permisso para sair. 
      Cris olhou o relgio na parede da cozinha. 9:45. Sabia que seus pais provavelmente j estariam dormindo. Seu pai trabalhava num laticnio e tinha de sair de 
madrugada. Habitualmente ia dormir antes mesmo que ela. No seria bom ligar e acord-lo para pedir um favor como este. Mas, se no perguntasse... 
      - Ns vamos ao "Blue Parachute", disse Katie, entusiasmada. Pegue sua bolsa e vamos embora! 
      Ted estava conversando com algumas pessoas na cozinha. Se ela soubesse se ele iria ou no, seria mais fcil decidir. 
      - Pronta? perguntou Douglas, aproximando-se. Todos ns vamos. Voc quer ir no carro do Ted ou comigo?
      - Eu, eu no tenho certeza.
      Cris detestava ter de tomar decises como essa. Principalmente sabendo que, qualquer que fosse a deciso, ela acabaria perdendo. Qual era pior: perder a considerao 
dos novos amigos ou a confiana dos pais? 
              
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Elefantes, Macacos e Cobras
      3
      
      - Est certo. Eu vou, disse Cris, arrependendo-se da deciso impulsiva na mesma hora.
      Meus pais nunca vo saber, argumentou consigo mesma. Eu no vou contar. S vamos a um restaurante. O que poderia acontecer? Eles deixariam se conhecessem esse 
pessoal. 
      - Tenho lugar, disse Ted para Douglas e Cris, se quiserem vir comigo na "kombi nada". 
      Cris seguiu, calada, o resto do grupo at o estacionamento e ficou a olhar para Katie, que se ria e fazia piadas com Rick enquanto se dirigiam para o Mustang 
vermelho do rapaz. Ela era uma das que iam no carro dele. 
      Ted abriu a porta lateral da velha kombi. Olhando para Cris, perguntou: 
      - Est tudo bem? 
      - Claro, respondeu ela rapidamente, entendendo que seu sentimento de culpa estava estampado no rosto. 
      Nunca soubera enganar. E era pior ainda quanto tinha de mentir. 
      Douglas mudou de posio e olhou-a bem nos olhos. 
      - No, voc no est bem. O que  que h, Cris? 
      -  que combinei com meus pais que no sairia depois que escurecesse. Sei que, se estivessem aqui, seria diferente. Eles me deixariam ir.
      - Mas no esto, disse Ted, fechando a porta do carro. 
      - Ento vamos ficar em casa tambm, falou Douglas, solidarizando-se com ela. 
      - Podemos fazer banana split, ofereceu Stephanie. Tenho tudo que precisa. No daria para o grupo todo, mas d para ns quatro. 
      - Vocs no precisam ficar s por minha causa. Eu fico sozinha e vocs vo. 
      - E por que iramos? perguntou Ted. 
      - No precisa se preocupar Cris, disse Stephanie. Esses caras no se importam aonde vo, desde que tenha comida. Vamos ter mais oportunidade de conversar, 
e isso vai ser bom. 
      Ted fez sinal para Rick, que estava prestes a sair do estacionamento. Correu at sua janela e, baixando-a, explicou-lhe a situao. Cris percebeu o rosto de 
Rick virando-se na direo dela. Compreendeu que ele estava se lembrando das regras que seus pais haviam estipulado quando estavam namorando. 
      Isso mesmo, todo mundo olha para mim, pensou ela. Aqui estou eu, Cris Miller, o maior beb do mundo!
      Uma risada leve de Katie encheu o ar. Ted deu trs batidas no lado do carro, do jeito que um caubi bate no cavalo para iniciar a cavalgada. Com um chiar dos 
pneus, Rick arrancou, ansioso para chegar prximo dos outros carros que j tinham partido. 
      Qundo os quatro voltavam para o apartamento de Stephanie, Cris sentiu uma vontade enorme de pedir desculpas. 
      - Desculpa, gente. Obrigada por estarem fazendo isso por mim. 
      Douglas colocou um brao em seu ombro e replicou: 
      - Que espcie de "Amigos de Deus" estaramos sendo se no a apoissemos quando voc fala em obedecer aos seus pais? 
      - Ainda me sinto mal por empatar vocs.  verdade. Se vocs quiserem ir, eu fico bem aqui. 
      - Cris, larga disso, falou Ted, interrompendo-a e abanando as mos, enfaticamente. Voc  a nica que est achando que isso  demais. 
      Talvez ela se sentisse censurada ou com vergonha se outra pessoa falasse assim com ela, mas no o Ted. Ele podia falar assim porque, quando o fazia, algo l 
dentro dela se aquietava. 
      Acompanhando Stephanie, foram para a cozinha onde se puseram a criar verdadeiras obras-primas de banana split, e terminaram jogando chantlly uns nos outros. 
      Stephanie contou que na semana seguinte voltaria para San Francisco, e passaria as frias trabalhando na loja de computadores de seu pai. 
      - Os pais dela vieram da China, explicou Douglas.  uma histria maravilhosa. O pai dela recebeu uma Bblia em chins de um cara que contrabandeava bblias 
para o pas. Era a primeira vez na vida que ele ouvia falar em Bblia. Ele a leu e entregou o corao a Jesus. Mais tarde conheceu outros cristos que se reuniam 
numa igreja clandestina. Foi onde conheceu a me de Stephanie. 
      Stephanie continuou: 
      - Na verdade, eles se conheceram na universidade, mas nenhum sabia que o outro era cristo. 
      - Incrvel, disse Cris, lambendo o chocolate da sua colher. Como foi que acabaram vindo parar em San Francisco? 
      Stephanie contou sobre as dificuldades que eles tinham enfrentado tentando sair do pas. 
      - Ficaram com mais pressa de sair quando minha me ficou grvida de mim. Tinham de deixar a China antes que a gravidez comeasse a aparecer.
      Ted virou-se para Cris, e explicou: 
      - Aborto obrigatrio.  ojeito chins de controle populacional. Eles j tinham um filho, e cada famlia s pode ter um. 
      Cris arregalou os olhos de espanto. 
      - Quer dizer que voc teria sido abortada se seus pais no sassem da China? 
      Stephanie acenou que sim. 
      Cris j ouvira, vagamente, acerca da dificuldade de vida em alguns pases, mas no conhecia ningum que houvesse fugido para os Estados Unidos.
      - Est na cara que seus pais conseguiram sair do pas. 
      - Eles vieram para San Francisco. Nasci quatro meses depois que aqui chegaram. Por isso sei de tudo, todo o drama que viveram. Agora, a parte difcil da histria 
 que vivemos num pas onde temos liberdade de adorar a Deus e um de meus irmos mais novos no quer nada com o cristianismo. Acho que isso tem sido mais difcil 
para meus pais do que tudo por que passaram antes. 
      Mais tarde, deitada no cho, no saco de dormir, Cris ficou pensando nessas palavras. Katie e os outros ainda no tinham voltado, e Cris no conseguia dormir. 
Sentiu que havia crescido mais numa noite do que no seu ltimo ano de colgio. A conversa com Stephanie f-la refletir em silncio, lembrando de como era fcil para 
ela ser crente. Nunca fora desafiada a fazer algo perigoso por sua f. 
      Outra parte da sensao de maturidade vinha do fato de estar por sua conta e entre universitrios. Sentia-se independente, ainda que no tivesse liberdade 
de sair com o resto da turma. Estava fora de casa, fazendo novas amizades, tomando suas prprias decises. Nessa noite aprendia que amadurecer era uma experincia 
maravilhosa. 
      Naquele momento a porta do apartamento se abriu. Atravs da porta do quarto entreaberta, Cris viu a silhueta de Katie parada ali, cochichando alguma coisa 
com o Rick. Cris continuou olhando e viu que ele firmava o brao contra o batente da porta e abaixava a cabea at o nvel dos olhos de Katie. Cris conhecia bem 
o gesto. Ele assumira a mesma posio vrias vezes com ela, no instante em que ia beij-la. Essa atitude fazia a garota sentir-se protegida e ao mesmo tempo valorizada. 
Cris hesitou em permanecer observando o que aconteceria a seguir. 
      Mas olhou. 
      Rick beijou Katie. Em vez de limitar-se a receber o beijo, ela passou os braos em volta do pescoo de Rick e beijou-o tambm. Em seguida, ele se afastou levemente 
e ela tirou os braos. Cris ouvia seus sussurros abafados e viu depois Rick se afastar e dizer adeus. 
      - Eu o vejo amanh, disse Katie em voz suave. 
      A moa fechou a porta, e Cris podia ouvi-la cantarolando. 
      Ah Katie! No quero que Rick parta seu corao!
      Quando a colega entrou no quarto, Cris fingiu que dormia.
      Tinha certeza de que j passava bem da meia-noite, e no seria uma boa hora para ter uma conversa franca com sua melhor amiga.
      Vou esperar para ver como as coisas andaro amanh no zoolgico. Ainda no lhe disse uma palavra negativa sobre ele. Mas se ele a tratar mal amanh, no vou 
suportar. Farei tudo para que terminem! 
      No dia seguinte, Cris levou mais de uma hora caminhando pelo zoolgico antes de comear a relaxar e parar de bancar a super-espi. Estava tensa por diversas 
razes. Rick parecia ignorar Katie completamente, ou, no mnimo, tratava-a como se fosse uma criana chata. E ela nem parecia notar. Estava anormalmente barulhenta, 
flertando descaradamente. Duas vezes Cris notou que ela colocara o brao no de Rick, mas ele no deixava por muito tempo. 
      Alm do mais, Cris sentia-se tensa porque eram um grupo de cinco. Stephanie tivera de ir trabalhar. S Cris, Katie, Rick, Douglas e Ted embarcaram na aventura 
do zoolgico. Um grupo de cinco era mais difcil que de quatro ou at mesmo de seis. 
      Perto da lagoa dos flamingos, na entrada principal, o grupo resolveu dar um giro no trenzinho. Katie sentou-se perto de Rick, Cris ficou na frente deles, e 
Douglas ao lado dela. Sem espao para o Ted, ele teve de sentar-se noutro banco, perto de uns turistas que s falavam japons. 
      Desembarcaram e foram at o espao das girafas, os cinco misturados com os outros turistas. Nem parecia que formavam um grupo  parte. 
      Katie, a primeira a chegar, exclamou: 
      - Olhe s o filhote de girafa! Que gracinha! 
      Douglas se aproximou de Cris, passou o brao pelo ombro dela e apontou a fileira de altos eucaliptos. 
      - Olha s a girafa torcendo o pescoo em volta da rvore. No parece que est tentando brincar de esconder? Mas a rvore  muito fina... 
      Cris e Douglas riram-se, mas ao mesmo tempo ela percebeu que Ted se desviara para o lado, sozinho. Katie tinha agarrado de novo o brao do Rick e estava esticando 
o pescoo, tentando diverti-lo imitando uma girafa. 
      Rick no parecia achar engraado. 
      Cris sentiu-se inquieta, como se dependesse dela fazer todo mundo se dar bem e divertir-se. 
      Pare com isso, finalmente repreendeu-se a si mesma, quando se encontravam em frente da exibio de coalas, olhando para um filhote agarrado  me. Voc no 
 me de ningum, Cris. Retaxe e "curta" o passeio. 
      - Eu queria ver os elefantes, disse Ted. Algum tem idia de onde eles esto? 
      Douglas puxou do bolso traseiro um mapa do zoolgico e comeou a dar instrues. Rick se afastou de Katie e se aproximou do amigo, curvando-se sobre o mapa. 
      - Aqui ainda tem o show dos lees marinhos? perguntou Rick. Era o de que eu mais gostava quando era menino. 
      Os trs rapazes ficaram examinando o mapa, e Cris se aproximou de Katie. 
      - No tive chance de lhe perguntar como foram as coisas ontem  noite. Voc e Rick se divertiram? 
      Katie parecia chateada, mas respondeu com calma: 
      - Sim, foi timo. Todos ns nos divertimos. 
      Cris resolveu fazer um comentrio mais direto. 
      - Parece que voc e o Rick esto se dando bem. 
      Katie agarrou o brao de Cris e afastou-a dos rapazes. Estava com lgrimas nos olhos. 
      - Ele no gosta de mim, no  mesmo? Ontem  noite pensei que alguma coisa estivesse pintando entre ns, mas hoje ele est se afastando de mim e me olha como 
se eu fosse uma idiota. 
      - Voc no  idiota, Katie. 
      - Mas me sinto assim. Por que eu fui me envolver com ele? Nunca gostei dele. Por que  to importante que ele goste de mim? concluiu ela, chorando.
      Cris ficou bem perto da amiga, para que os rapazes no a vissem chorar. 
      - Calma, Katie. Voc no precisa da aprovao do Rick. Verdade! No precisa se esforar para que ele goste de voc. Voc  maravilhosa do jeito que . Se Rick 
reconhecer isso, timo. Se no, quem sai perdendo  ele. 
      Katie fungou e limpou o rosto com as costas da mo. Os olhos verdes pareciam duas esmeraldas no fundo de uma piscina profunda. 
      - Voc me promete uma coisa? indagou Cris. 
      Katie concordou. 
      - Promete que no vai deixar o Rick usar voc? Ele faz isso com as meninas, sabe? Talvez nem seja de propsito. Ele no consegue abrir mo de um desafio e, 
s vezes, passado o desafio, passa tambm o interesse. Entende o que quero dizer? 
      - Eu sei, eu sei. E voc tem todo direito de me dizer essas coisas, Cris. So as mesmas que eu disse para voc no ano passado, quando voc o namorava. 
      - E, e eu no lhe dei ateno na poca. E se voc no me ouvir agora, no posso nem achar ruim. Mas quero que me prometa que no vai deixar que ele a use. 
Voc no merece ser maltratada por ningum. 
      Katie enxugou a ltima lgrima e ergueu os olhos, fitando os rapazes. O sorriso voltou-lhe ao rosto. 
      - Olhe s aqueles trs! Parece que ns somos a atrao do zoolgico, do jeito que esto parados a olhando para ns. Se ficarmos aqui mais um pouco, talvez 
eles nos joguem uns amendoins!
      Cris olhou para eles, e as duas comearam a rir, achando gozada a situao. 
      - Vamos l! Vamos tentar comear essa aventura toda de novo, est bem? 
      - Voc j notou quanta coisa vem em grupo de trs? perguntou Katie, ainda olhando para os rapazes, que pareciam no saber aproximar-se dessa rara espcie feminina. 
      - Os trs ursos, por exemplo?
      - Os trs mosqueteiros, os trs ratos cegos e... os trs patetas! conclui Katie dando uma risada. 
      Cris acenou concordando, e comearam a voltar para onde eles estavam. 
      - Qual deles voc quer: Larry, Moe ou Curly? indagou em tom de brincadeira. 
      - Vocs esto bem, garotas? perguntou Douglas, deixando o grupo e se aproximando delas. 
      - Claro. Estvamos apenas conversando sobre astros do cinema. 
      Cris tentou abafar uma risada e sorriu para o Ted, que lhe devolveu um de seus sorrisos calorosos e compreensivos. 
      - Que tal visitar um astro famoso? perguntou Douglas. Dizem que tem um elefante danarino aqui. Vamos ver? 
      - Boa idia, disse Katie, ignorando o Rick e dando um sorriso largo para o Douglas. Sigamos at a selva,  grande mestre, desbravador de trilhas! 
      Douglas e Katie iam na frente e Cris seguia entre Rick e Ted. A desajeitada dinmica de um grupo de cinco voltou. 
      - Por que ele faz isso? perguntou Katie alguns minutos mais tarde, quando observavam o elefante danarino balanar para frente e para trs com o p atado numa 
corrente. Ser que aquele negcio no machuca? 
      - Parece que no, disse Ted. Acho que ele escuta sua prpria msica e segue o compasso dela. Legal, hein? 
      Cris sabia que, se o assunto era algum ouvir sua prpria msica e "danar de acordo com ela", Ted era mestre. Ele e o elefante danarino pareciam ter algo 
em comum. 
      - Que tal vermos alguns animais de verdade? perguntou Rick. Onde esto os lees e os tigres? No tem cobras por aqui? 
      - J vimos o leo, esqueceu? Estava dormindo. Os macacos esto por aqui. Vamos dar uma olhada neles primeiro, replicou Douglas. 
      Katie cochichou para Cris: 
      - Notou como cada cara quer ver o animal com o qual se identifica? 
      Cris concordou com um sorriso.
      - E voc viu como o Rick se identifica com as cobras? 
      - Eu vi! Voc lembra como o Jon, meu patro, comparava o Rick com uma cobra? 
      - Bom, ainda bem que recuperei o bom senso antes que ele se enroscasse em mim! disse Katie um pouco mais alto. 
      - Shh! fez Cris, levando os dedos aos lbios, fazendo sinal para que ela se calasse. 
      - Sssss combina mais com ele, cochichou Katie. 
      - Que segredos so esses entre vocs duas? perguntou Douglas. 
      Ted respondeu antes que Cris ou Katie tivesse a oportunidade de abrir a boca. 
      -  coisa de garotas. D a elas a sensao de que esto no controle, quando tm segredos. Mas a gente sabe que esto cochichando sobre ns. 
      - Voc no sabe se  isso, no! respondeu Katie, desafiando a filosofia dele. Podamos estar falando sobre outra coisa. 
      - Como o qu, por exemplo? 
      - Como... bem... qualquer coisa, respondeu Katie com as mos na cintura. Alm do mais, voc no saberia porque; como voc mesmo disse,  coisa de garotas. 
      Cris estava contente por terem parado na frente do gorila. Era o pretexto de que precisava para mudar de assunto. Um enorme gorila entre preto e cinzento estava 
sentado de ccoras sobre uma rocha  sua frente. Tinha as mos dobradas debaixo do queixo e parecia fitar todos os visitantes do zoolgico. 
      - Olhe s aquele cara! exclamou Douglas. Parece que hoje se levantou com a inteno de ficar ali reparando nos turistas que passassem.
      - Nem se mexe! disse Ted. 
      - Eu vou faz-lo se mexer, disse Rick, pegando um amendoim do cho e jogando para ele. 
      - No jogue nada pra ele, no, cara. No leu a placa? interveio Cris. 
      - Olhe s. Ele nem se mexeu. Esse cara  uma rocha, comentou Douglas. 
      - Esse "cara"  fedorento, disse Katie, apertando o nariz com os dedos. Voc no sente o cheiro? 
      - Pensei que fosse o Douglas, brincou Rick. 
      - Aaaah! Muito engraado. Quem  que guarda as meias de ginstica debaixo da cama? 
      Rick anuiu com uma risada. 
      - Estava mesmo querendo saber o que aconteceu com as minhas meias. 
      - Olhe a, gente, disse Ted, lendo a placa de informao na frente do gorila. Diz aqui que eles tm um "odor corporal distinto, inconfundvel e muito desagradvel 
aos seres humanos". 
      
      - E o nome do Douglas embaixo, no ? perguntou Rick. 
      Douglas deu um murro de brincadeira no brao do colega. 
      - Na verdade, diz: "O odor no  falta de limpeza. Na selva, o odor ajuda os gorilas a se localizarem." 
      Os rapazes comearam a rir-se, como se fosse a coisa mais engraada do mundo. 
      - Deve ser uma dessas coisas de rapazes, cochichou Katie para Cris. 
      - Eles so mesmos esquisitos. Riem-se de qualquer coisa! respondeu esta tambm cochichando. 
      - Vamos l. Quero ver as cobras, falou Rick. 
      Foi a vez de Cris e Katie carem na gargalhada. 
      - Nunca d para entend-las, comentou Ted, saindo  frente deles para a jaula seguinte.  coisa de garotas. Totalmente!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Como Katie se Diverte
      4
      Duas semanas mais tarde, quando Cris e Katie voltavam para casa aps a festa de lanamento do anurio do colgio Katie perguntou: 
      - E ento, que foi que Fred, o fotgrafo, escreveu no seu? 
      - Ah! disse Cris, tirando a mo direita do volante e apontando para o seu lbum no banco traseiro, algo bobo tipo "continue sorrindo e eu a vejo ano que vem 
na equipe do anurio". 
      - E voc pretende trabalhar na equipe ano que vem? 
      - Ainda no sei.  provvel. Tenho a mquina fotogrfica legal que meu tio me deu no Natal passado, e ainda mais, tenho certeza que consigo tirar fotos melhores 
do que as que o Fred bateu este ano. 
      - No sei... falou Katie abrindo seu lbum na seo sobre frias de inverno e levantando-o para Cris ver a foto central. Acho que o Fred se saiu bem com esses 
instantneos. 
      - Tire esse retrato da minha frente, disse Cris, recusando-se a olhar. 
      Fred tirara uma foto numa pizzaria, ampliando-a depois para que Cris ocupasse, com destaque, o centro da pgina. Cris aparecia sentada a uma mesa, e Rick quase 
no seu colo, com o brao em volta dela. Ele parecia um modelo fotogrfico, naturalmente, e Cris tinha a cara assustada, como se lhe houvessem metido gelo nas costas. 
Ao lado dessa fotografia, havia uma pequena de Katie fazendo palhaadas na mesma pizzaria. Estava com orelhas de copos de isopor e fingia ser um anozinho. Era muito 
mais engraada do que a foto de Rick e Cris, e ela desejou que tivessem ampliado essa, e no aquela. 
      - Talvez eu deva participar da equipe de novo no ano que vem, para proteger a minha reputao. 
      - Talvez no seja m idia depois dessa foto aqui, comentou Katie. 
      Abriu na pgina sobre o clube de esqui e apontou para a foto da Cris, trombando com o instrutor de esqui. Os esquis dela estavam entre os ps dele, e o rosto 
no peito do rapaz. 
      - Por que eles puseram o meu nome? indagou Cris em tom lamentoso. Ningum saberia quem foi, se no tivessem escrito. 
      - No reclame. Voc teve mais fotos do que eu. 
      - E isso l  bom? 
      - Claro que . Voc est se tornando bastante popular. Acho que essa onda comeou quando voc recusou a posio de lder de torcida no ano passado e a escola 
inteira soube que fez isso para que a Teri Moreno ficasse no lugar. E voc vai tentar de novo este ano? 
      - De jeito nenhum! No  engraado? Ano passado, eu s conseguia pensar em ser lder da torcida e agora no tenho o mnimo interesse. 
      Cris tomou a entrada de sua casa. 
      - No quer chegar um pouco? 
      - Claro. E a, o que voc quer fazer? 
      - O qu? perguntou Cris ao subirem at a varanda. 
      O jasmim na trelia estava em flor e sua doce fragrncia enchia o ar de lembranas. Recordava-se de haver sentado embaixo dela no ano passado com o Ted, aspirando 
o cheiro forte das flores enquanto ele lhe dizia que iria levar outra garota  festa de formatura. 
      - O que voc quer fazer? Voc no quer se candidatar a lder de torcida e talvez participe da equipe do lbum do ano. Mas o que voc pretende fazer nestas 
frias de vero? 
      - Provavelmente trabalhar. E ir  praia, gozar da companhia de vocs, do Ted, todo mundo. 
      Cris abriu a porta da frente e cumprimentou a me, que estava sentada no sof, assistindo  televiso, remendando roupas. 
      - Vamos para o meu quarto, convidou. 
      - Ol, Katie! disse a me de Cris num suave sussurro. 
      A luz do abajur batia no seu cabelo escuro e ondulado, de maneira a fazer brilhar os fios brancos como se fossem prata polida no meio de um bon de l escuro. 
      - Seu pai j dormiu e Davi deve estar dormindo tambm, informou a me. 
      - No vamos fazer barulho, prometeu Cris. 
      Era difcil, porque a casa era muito pequena e os trs quartos ligados ao mesmo corredor. Assim que entraram e fecharam a porta, Katie perguntou novamente 
o que ela pretendia fazer naquelas frias. Cris examinou o rosto da amiga antes de responder. Afinal disse: 
      - Eu estaria correta se dissesse que voc j sabe o que pretende fazer durante as frias? 
      - Como  que adivinhou? 
      - Leio seus pensamentos como se fossem um livro, Katie Weldon. Se no estiver enganada, voc est pensando em alguma coisa ousada, aventureira, meio maluca, 
adrenalina pura, no? 
      - Quem, eu? 
      Cris ajeitou o travesseiro contra a cabeceira da cama e encostou-se nele. 
      - A ltima vez que apareceu com essa cara, voc me convenceu a entrar para o clube de esqui e ir  lagoa Tahoe. 
      - Desta vez no estou falando em esquiar. Estou falando sobre um acampamento de frias. 
      Cris no participava de acampamento desde os tempos do primeiro grau. Gostou da idia no instante em que sua amiga a exps. 
      - Onde? Quando? Com o grupo de mocidade da igreja? 
      - Sim. Dei meu nome domingo passado, depois que voc j tinha sado. No sabia ao certo se voc gostaria da idia, porque achei que talvez voc estivesse planejando 
passar todo o tempo possvel com o Ted.
      Cris deu um longo suspiro. 
      - Sabe, Katie, as coisas com ele no mudam. Acho que nosso relacionamento no avanou nem um passo desde que ele voltou do Hava. Isso j faz mais de cinco 
meses. As coisas parecem estar do mesmo jeito que no ano passado. 
      - Pelo menos ele  coerente. 
      - Coerente? Entediante  a palavra mais certa. 
      - Eu no reclamaria, se fosse voc. O Ted sempre est a para voc. Quer comparar com o que houve comigo no ano passado?
      Katie deitou-se de costas no cho, contando nos dedos. 
      - Vamos ver.., teve o Glen, o filho de missionrios do Equador que gostava de conversar no telefone, me abraou duas vezes e, quando foi para Quito, h dois 
meses, prometeu me escrever. Claro que no recebi uma nica linha e ele deve achar que estou desesperada, porque lhe escrevi quatro vezes.
      - Tudo bem. Tenho certeza de que ele ainda vai lhe escrever. Provavelmente as cartas da Amrica do Sul demoram muito para chegar aqui. 
      - E depois tem aquela experincia do Rick. Se eu comear a gostar dele de novo pode me dar uns bons tapas! Alm de um beijo na passagem de ano e mais um e 
meio no apartamento da Stephanie em San Diego, s ganhei do Rick uma tremenda bofetada na minha auto-estima. Tenho certeza de que ele achou melhor na minha do que 
na dele. E a est. Minha trepidante vida amorosa! Pelo menos voc tem o Ted. Bom, coerente, no funde sua cuca, cuida do seu corao. 
      - Tem razo, concordou Cris, mas com certa hesitao. 
      Katie sentou-se e deu um puxo na colcha da Cris. 
      - Menina, pare de reclamar! Vamos encarar os fatos? Voc est com tudo e no sabe! 
      Cris no procurou explicar seus sentimentos para Katie. Eram s seus. Sentimento de querer romantismo. Quando namorara o Rick, ele lhe comprava rosas e dizia 
coisas incrveis e carinhosas. Ted no tinha nada de meloso, no tocava seu cabelo nem ficava fitando os olhos dela ao jeito do Rick. Mas para o Rick isso parecia 
um jogo em que o trofu era ela. 
      Se ao menos o Ted pusesse uma pitada de romantismo na amizade pura e sincera deles, seria perfeito! Mas, em vez disso, ficava era de p atrs, na dele;  verdade 
que ela tambm no se soltava. 
      - Al! Tem algum em casa? falou Katie, abanando a mo no ar para chamar a ateno da amiga. 
      - Desculpe. O que voc estava dizendo? 
      - O acampamento de vero. Acho que devamos ir a um acampamento. 
      Uma sensao agradvel inundou Cris, com as recordaes do acampamento: sentar junto  fogueira  noite, colher flores silvestres e nadar num lago aquecido 
pelo sol, a misteriosa sensao de conhecer algum na floresta. Um rapaz diferente, bonito e terno que escrevesse cartas longas e romnticas e segurasse sua mo 
ao luar. 
      - Ei! disse Katie. Estou falando sozinha aqui? 
      - No, estou escutando. O acampamento de vero. Vamos ao acampamento nestas frias. E vamos nos divertir muito l. Estou pronta. Vamos sim! 
      A boca de Katie abriu-se num largo sorriso. 
      - No entendo voc, Cris. Acho que est dormindo de olhos abertos. Talvez seja melhor eu deix-la sozinha para terminar o sonho sem interrupes. 
      Katie ps-se de p e continuou: 
      - Cinco a onze de julho. Ligue para o Lucas esta semana na igreja e diga-lhe que voc concordou em ir. Ele vai ficar contente. A gente se v. Bons sonhos! 
      Katie saiu, deixando Cris com um turbilho de pensamentos empolgantes sobre o acampamento. Teria de pedir permisso aos pais, solicitar uma dispensa do trabalho, 
verificar se tinha roupa para a semana toda. Talvez essas frias fossem bem interessantes... 
      No domingo seguinte, Cris conversou com Lucas, o pastor da mocidade, e fez algumas perguntas sobre o acampamento. 
      - O nome  "Acampamento Wildwood" e fica a umas duas horas daqui. Voc ter onze garotas em seu alojamento. Ns pagamos a estada, mas voc ter de despender 
vinte dlares com transporte. Isso fica por sua conta. 
      - No h problema, e j consegui folga do trabalho. Como v, estou pronta. 
      Lucas sorriu, com expresso satisfeita, e disse: 
      - Sabe, Cris, estou contente por v-la disposta a fazer isso. 
      - Disposta? Est brincando? Mal posso esperar. Adoro acampamentos! 
      - Ainda bem. Creio que vai ser uma tima semana. Quero que saiba o quanto aprecio ver voc e Katie se oferecendo para isso. No so muitos os estudantes dispostos 
a doar uma semana de vero assim. 
      - Ento eles no sabem o que esto perdendo. 
      Cris achou timo a igreja patrocinar os jovens que queriam ir, pagando sua estada. 
      Naquela tarde Ted apareceu, e foram  praia. Mesmo com a chegada oficial do vero, ainda estava um pouco frio, e uma neblina, vinda do oceano, pairava sobre 
a areia.
      - Carlsbad  to diferente de Newport, comentou Ted, enquanto se sentavam num cobertor e olhavam as ondas. E difcil acreditar que fica s a sessenta milhas 
de distncia de Newport, na mesma costa do Pacfico. Parece que estou no Atlntico. 
      - Por qu? indagou Cris fechando o zper do bluso e enrolando a ponta do cobertor nos ps. E porque est fazendo frio? 
      - No,  o jeito das ondas quebrarem. Parecem vir de outro ngulo aqui. Sei l, pode ser o tempo tambm, embora no seja raro esse tipo de temperatura nesta 
poca. 
      Na casa de Cris, em Escondido, cerca de meia hora de carro de Carlsbad, estava quente e ensolarado quando saram. Ela vestia short e camiseta sobre o mai. 
Sua sbia me lhe atirara um casaco na sada para a rua. 
      O vento fustigava a manga da camiseta do Ted. Ele parecia confortvel. Cris nunca notara antes, mas os cabelos das pernas do Ted eram quase brancos de to 
loiros, e superenrolados. Ele no parecia sentir frio. 
      - Estou com frio, comentou Cris. 
      Ted afastou a vista do mar e olhou surpreso para ela. 
      - Est mesmo? 
      Cris riu-se da expresso de espanto do rapaz e passou a mo na pele arrepiada. 
      - Sim, estou. No tenho um casaco de pele embutido como voc, falou brincando, e puxou um dos plos na perna dele. 
      - Ai! gritou ele e, notando suas pernas lisas, indagou: Por que as garotas fazem isso -raspam as pernas? 
      - Para parecerem bonitas, lisas e femininas. 
      - Mas a vocs sentem frio. 
      - Deixe pra l. Na verdade, fazemos isso para que os rapazes sintam pena de ns quando dizemos estar com frio. A eles colocam o brao em volta de nosso ombro 
e nos aquecem. 
      - Tenho uma idia melhor, disse Ted, pondo-se de p e oferecendo-lhe a mo para levantar-se. Vamos andar. 
      Sentia a mo de Ted forte e firme enquanto caminhavam pela praia. Ainda estava com frio nas pernas, mas interiormente estava aquecida e contente. Era assim 
que as coisas iam entre ela e Ted nos ltimos meses. Mais que irmos, eram quase namorados. 
      Percebeu que ele correu o dedo pela corrente da pulseira de chapinha que ele lhe dera um ano e meio atrs. Gravara nela as palavras "Para Sempre". Era a promessa 
de que seriam amigos para sempre. O relacionamento deles havia passado por altos e baixos desde que haviam se conhecido dois anos antes. Mas a promessa permanecia. 
Ele sempre a tratava como uma amiga querida. S que, de vez em quando, como agora, Cris queria mais. 
      - No que voc est pensando? 
      - Papua, Nova Guin. Estava imaginando qual o ngulo das ondas l. 
      O que se pode esperar? Desde que conheo o Ted, sei que ele sonha em ser missionrio numa ilha remota, cheia de nativos que ainda no ouviram o evangelho. 
E to surfista que, se o cortar, ele sangra gua salgada. Pode ter certeza! Por que eu iria achar que ele estava pensando em mim? 
      - E voc, no que estava pensando? 
      A pergunta surpreendeu-a. Embora muitas vezes ela indagasse ao rapaz sobre seus pensamentos, ele raramente perguntava sobre os dela. Talvez o Ted estivesse 
ficando mais parecido com Cris,  medida que passavam mais tempo juntos. Ela, por seu lado, estava se tornando mais parecida com ele. 
      - Estava pensando em ns e imaginando como ser o futuro. 
      Uma coisa que ela aprendera era ser sincera com o Ted. 
      Houve uma pausa; ele apertou-lhe a mo, e disse: 
      - Eu tambm. 
      Cris sentiu o corao bater um pouco mais forte. Ele interrompeu o passo e, virando-se para ela, olhou-a de frente. A luz do sol brilhava no seu rosto, iluminando-lhe 
os olhos azul-prateados e destacando o queixo quadrado. Sua expresso continuava sria, e no havia covinha na bochecha direita. 
      - Mas sabe de uma coisa, Kilikina? 
      Cris sempre se derretia quando ele a chamava pelo nome havaiano. 
      - Se passarmos o dia todo pensando no amanh, ele vai embora e a gente no aproveita nada. 
      Cris reconheceu que ele tinha razo. Por mais que desejasse que ele a abraasse, que lhe beijasse o cabelo e contasse todos os seus planos para o futuro, sabia 
que ele no o faria. Ted era reservado no tocante a expresses fsicas. Isso era parte de seu carter honrado. Certa vez ele lhe disse que jamais a "defraudaria" 
de propsito. 
      Quando ela perguntou o que ele queria dizer, Ted disse: 
      - No quero despertar em voc um desejo que eu no possa satisfazer com dignidade diante de Deus.
      Ela sabia que, se o relacionamento deles fosse cheio de abraos, beijos e sussurros, o desejo nele despertado acabaria chegando a um ponto que no teria mais 
retorno. 
      No p em que estavam as coisas, podiam suspender temporariamente suas relaes. Exceto pela falta de sua profunda amizade, que certamente haveriam de sentir, 
no teriam que se arrepender de promessas no cumpridas, nem das dolorosas lembranas de uma intimidade exagerada. 
      - Ento vamos aproveitar o dia exclamou Cris, sorrindo-lhe com os olhos. Estou contente por estar com voc. Mas  melhor continuarmos andando. Comecei a ficar 
com frio de novo. 
      Ted apertou-lhe de novo a mo e desceram pela praia. Passaram as duas horas seguintes juntando conchas, escavando a areia  procura de caranguejos e brincando 
de pegador com as ondas. Foi realmente uma tarde maravilhosa. 
      Quando chegaram a casa, sua me tinha preparado "tacos", e havia um recado dizendo que Katie telefonara. 
      Cris s ligou para Katie na manh seguinte. A conversa foi curta e a notcia mandou Cris de volta para a cama no seu primeiro dia de frias de vero. 
      Sua me bateu na porta, perguntando: 
      - Cris, voc est bem? 
      - Entra, me. Estou chateada. Katie no vai poder ir ao acampamento. Os pais dela no deixaram, por ser uma atividade de igreja. No  uma loucura? Eles deixam 
ela sair sozinha e fazer uma poro de coisas que vocs jamais aprovariam, mas no querem que ela se envolva demais com a igreja.  duro ser a nica crente da famlia. 
      - E voc ainda quer ir? 
      - Mais ou menos. Perdeu um pouco a graa. 
      - Talvez a gente possa ligar para o Lucas e ver se outras garotas que voc conhece estaro indo... 
      - Est bem. Mas no vai ser to divertido quanto seria se a Katie tambm fosse. 
      Cris acabou no telefonando para Lucas. Quando o viu domingo na igreja, perguntou quem mais iria ao acampamento. 
      - Voc e Katie eram as nicas de nossa mocidade. 
      No dava para acreditar. O grupo de jovens da igreja tinha 250 pessoas! 
      - Que pena que Katie no vai. Ns realmente estamos precisando de conselheiras.  por isso que apreciei tanto vocs se oferecerem. 
      - Conselheiras?! Katie nos apresentou para irmos como conselheiras? 
      - Para o acampamento de crianas, explicou Lucas. Precisvamos de gente para se encarregar das meninas de 11 e 12 anos. Voc pensou que ela tinha dado o nome 
de vocs para o acampamento de jovens? Ele vai ser s na ltima semana de agosto. Quer dizer que voc tambm vai desistir? 
      Alguma coisa no modo como Lucas disse isso f-la sentir que seria o fracasso do ano, se ela desistisse faltando apenas uma semana para comear o acampamento. 
Principalmente porque Katie j no iria ajudar. 
      - No, eu vou, replicou Cris, procurando parecer tranqila. J consegui a folga do trabalho. Vocs precisam de conselheiras: eu vou. 
      Um enorme sorriso surgiu no rosto de Lucas. 
      -  isso a, moa! Sabia que podia contar com voc. Vai ser uma experincia e tanto de crescimento, voc vai ver. 
      -  disso que tenho medo, resmungou Cris. 
      No domingo seguinte, quando ela chegou ao estacionamento da igreja com a mala e o saco de dormir, sabia que no estava muito disposta para essa experincia 
de "crescimento". Um bando de crianas de 10, 11 e 12 anos corria entre montes de malas, gritando, batendo, matraqueando - claro vislumbre do que seria a semana. 
      Foi preciso mais de uma hora para organizar a "tropa", colocar a bagagem no lugar e instalar a crianada no nibus. Cris sentou-se logo atrs do motorista, 
esperando no ligar muito para a algazarra e o barulhento ritual da gurizada - cuspio, estalos de goma de mascar, essas coisas. Sabia que nesse fim de semana seu 
cuidado principal seria com o cabelo - evitar que um safadinho grudasse nele uma bola de chiclete. 
Katie, voc me paga por isso.
      O pior de tudo  que Katie gostava desse tipo de coisa. Adorava se sentir como o centro das atenes no meio dos baixinhos, e tinha um jeito todo especial 
de control-los com facilidade. Coisa dela, Katie, dom muito seu, no de Cris. 
      Uma menina veio correndo, aos gritos, do fundo do nibus e mergulhou no assento vazio ao lado de Cris, como se sua vida dependesse de proteo contra o que 
quer que a estivesse perseguindo. Cris ajeitou as pernas para acomodar o "furacozinho" voante e perguntou no seu tom de voz mais severo: 
      - O que est acontecendo aqui? 
      - Eeeeiaii! gritou a menina, abaixando-se e cobrindo a cabea com os braos. 
      Um menino engraadinho de olhos vivos e cabelo loiro escuro veio correndo pelo corredor do nibus e bateu nas costas da garota. 
      - Parem com isso imediatamente! 
      - Ela roubou o meu chocolate. 
      -  verdade? perguntou Cris  menina, ainda enrolada na poltrona, o cabelo desgrenhado cobrindo o rosto. 
      A menina ria-se o tempo todo. Cris perguntou de novo: 
      - Voc pegou o chocolate dele? 
      A menina continuou rindo. Cris segurou-a pelos ombros e levantou-a, descobrindo o tesouro roubado no seu colo. 
      - Devolve! gritou o menino. 
      Em seguida puxou a caixa de chocolates e voltou ao seu lugar no fundo do nibus. 
      Cris estava prestes a ralhar com a garota por t-lo irritado daquele jeito quando, num mpeto de alegria, a menina confidenciou-lhe: 
      - Acho que arranjei um namorado para a semana! 
      Do mesmo modo instantneo que o assento do lado tinha sido ocupado, esvaziou-se. Cris sentiu-se aliviada quando viu dois rapazes com ar de universitrios entrarem 
no nibus. Com vozes fortes eles chamaram a ateno das crianas e ordenaram que se aquietassem. Para surpresa de Cris, elas atenderam. 
      Um dos rapazes anunciou o regulamento da viagem de nibus at o acampamento. O outro pediu que abaixassem a cabea e fechassem os olhos, porque ele iria orar 
pela viagem. 
      Ao final, Cris acrescentou sua prpria petio: Senhor, podia designar uns dois anjos da guarda extras para esta semana? Acho que vou precisar. 
      O acampamento Wildwood
      5
      
      Duas horas mais tarde, quando pararam debaixo da placa de madeira que dizia "Acampamento Wildwood", Cris ficou com vontade de fugir do nibus e correr para 
casa. A palavra "rstico" seria civilizada demais para descrever o acampamento. O alojamento de Cris era no fim de uma trilha morro acima - ponto de difcil acesso 
para quem estivesse carregando bagagem. Suas "filhotas" seguiram-na pela trilha estreita e empoeirada, gritando, chorando, fazendo um escarcu medonho, capaz de 
assustar qualquer animal selvagem a quilmetros de distncia. 
      De alguma forma, Cris sabia que a nica vida selvagem que ela experimentaria nessa semana seria em forma de guerra de travesseiros, sapos no saco de dormir 
e invases dos meninos, cujo alojamento ficava da outra margem do crrego. 
      - Est bem, meninas! gritou, quando as viu chegando ao "lar doce lar". Vou ficar com o beliche embaixo, aqui perto da porta. Cada uma escolhe sua cama. Se 
brigarem por causa da cama de cima, a gente troca no meio da semana. 
      As meninas comearam a arrumar seus "ninhos" - faziam-nos com modos de garimpeiro em plena corrida do ouro. Cris achou que ficava melhor resolverem elas mesmas 
os seus problemas, e foi estender o saco de dormir sobre a cama. Encontrou l um bilhete da me: 
      Tenha lindos sonhos todas as noites. Com amor, sua me.
      Cris sorriu e guardou o bilhete na mochila. Retirou seu caderno no momento em que duas meninas estavam prestes a sair.
      - Esperem a! Onde vocs vo? perguntou ela, atravessando a perna na porta. 
      De repente entendeu por que, na reunio dos conselheiros, na noite passada, tinham feito tanta questo de que os conselheiros dormissem no beliche de baixo, 
prximo  entrada. Era o melhor lugar para vigiar a porta. 
      - Sair respondeu a loirinha. 
      - Ainda no. Primeiro temos de fazer uma reunio em nosso alojamento. 
      As meninas agiram como se ela acabasse de ordenar que comessem brcolis cru, e marcharam para seu beliche fazendo beicinho. 
      - Venham todas sentar-se aqui no cho. Vamos fazer uma reunio rpida; depois vocs estaro livres at o jantar. 
      - No podemos sentar na cama? perguntou uma menina com pele cor-de-bano e enormes olhos negros. 
      - Est bem. Desde que eu possa ver vocs todas! Esperem! Tenho uma idia. Sentem-se todas no beliche de cima. Desse jeito a gente v todo mundo. 
      - Acabei de arrumar minha cama, reclamou a menina do outro lado de Cris. 
      - Eu prefiro sentar no cho, disse uma outra. 
      - Podemos comer no alojamento? 
      A pergunta veio de uma loirinha gorducha que, pela mancha de chocolate no rosto, parecia que estivera comendo desde a hora que saram da igreja.
      - No, esse  um dos regulamentos. A comida atrai formigas e bichinhos que no queremos dentro de nosso quarto. Vamos comear, falou. 
      Cris se ergueu e se sentou no beliche vazio, acima do seu. Nesse momento pensou que, se um dos beliches estava vazio, ento uma menina no chegara ao alojamento. 
Em vez de sair para procurar a "ovelha perdida", achou melhor fazer a reunio conforme planejara. Pela lista de participantes, descobriria quem estava faltando, 
e poderia depois sair em busca da garota extraviada. 
      - Vamos acalmar, meninas. Vocs duas a atrs, no beliche de baixo, querem ficar aqui, por favor? 
      Era a loirinha e a sua amiga, que tinham tentado escapar minutos antes. 
      Cris olhou a lista, e disse: 
      - A reunio vai ser rpida. Preciso saber quem  quem. Vou fazer a chamada. Levante a mo, quando eu disser o nome. 
      - Isso aqui no  escola, disse a gorducha. 
      - Como  o seu nome? indagou a menina que estava no beliche  frente de Cris. 
      - Aah, sim. Meu nome  Cris. Cris Miller. 
      - Voc tem namorado? quis saber a loirinha dos fundos. 
      - Bem, na verdade.., hesitou Cris, falaremos sobre essas coisas depois. Primeiro eu preciso saber os seus nomes. Comeou a ler a lista. Amy? 
      - Presente, "professora", replicou uma menina do outro lado do quarto, debochando. 
      Ela tinha uns brincos pingentes de melancias vermelhas... Seu cabelo cor-de-caf era puxado para cima da cabea num rabo-de-cavalo que lembrava uma fonte de 
gua. A cada movimento que fazia, o cabelo e os brincos balanavam, lembrando uma ave tropical. At mesmo o jeito como ela disse "presente, professora" lembrava 
uma gralha. 
      - Jocelyn? 
      A moreninha levantou a mo. 
      - Sou eu. 
      Parecia que ela seria lindssima quando crescesse mais e seus traos exticos se ajustassem aos olhos. 
      Nenhuma menina de onze anos devia ter clios assim tao compridos e cheios. Ela nunca vai gastar um centavo com rmel em toda a vida. 
      - Sara? 
      - O qu? respondeu a loirinha. 
      Parecia uma boneca de cabelos ondulados, correndo livres pela cabea toda, e olhos de gengibre, bebendo tudo de relance. A camiseta de Sara tinha uma expresso 
escrita: "E da?" 
      - Ruth? 
      - Prefiro que me chame de Ruthie, falou uma garotinha que estava sentada na cama em frente  de Cris. Detesto meu nome. Parece to sem graa. 
      - Pois eu gosto, replicou Cris.  o nome da minha av. 
      Algumas das meninas comearam a dar risadinhas, mas os olhos de Ruthie se encheram de lgrimas. 
      - T vendo o que eu disse? Sua av! Ningum da minha idade se chama Ruth. 
      Ela tinha o rosto feio, nariz comprido e achatado, e usava aparelho ortodntico. Sua pele era perfeita, lisa e sem uma sarda. O cabelo castanho-claro descia 
liso at os ombros e era preso atrs da orelha esquerda. 
      - Bem, eu gosto do seu nome, reafirmou Cris, esperando consertar qualquer estrago que tivesse feito nesses primeiros minutos. 
      Chamou os outros nomes da lista. A nica que no respondeu foi Jeanine Brown. Cris anunciou os regulamentos do acampamento: no ir ao alojamento dos garotos, 
no sair do acampamento, etc. No tinha certeza de que elas iriam cumpri-los. 
      - Tem alguma pergunta? 
      - Sim, disse Sara. Voc tem namorado? 
      - Mais ou menos. E essa vai ser a melhor resposta que vou dar. Agora, vo e divirtam-se. Na hora das refeies, vou me encontrar com todas vocs no refeitrio. 
      - Refeitrio? disse Jocelyn, dando risada. Aqui  o cocho do rango. 
      - Est bem, noo. Quando der o sinal, vocs vo at o cocho. E lavem as mos antes de entrar, est bem? 
      As meninas j estavam se acotovelando para sair. Amy, a ave, gritou por cima do ombro. 
      - Sim, "professora". 
      Cris desceu do beliche e guardou o caderno. Enfiou a mochila debaixo da cama e saiu para procurar a desaparecida Jeanine Brown. Na metade do caminho, ouviu 
os gritinhos da pequena ladra que tinha colidido com ela no nibus no caminho para o acampamento. Cris desviou-se da trilha principal e logo encontrou a garota, 
que deixara seu esconderijo, atrs de uma rvore, e corria em sua direo. 
      - Me esconde! gritou ela, agarrando Cris pela cintura e usando-a como escudo. 
      - Devolve pra mim! gritou o menino que ela apoquentara no nibus, correndo atrs dela. 
      - Jamais! gritou a menina, rindo-se e apertando a cintura de Cris ao abaixar-se atrs dela. 
      - Ela roubou meu canivete! exclamou, exasperado, o menino. Cris se desvencilhou da garota, virou-se e, com firmeza, ordenou: 
      - Entregue o canivete! Vamos! 
      A menina ficou sria, arrancou do bolso do jeans um canivete suo de luxo, e o entregou a Cris com uma expresso de arrependimento. 
      - Como  seu nome e quem  o seu conselheiro? indagou Cris ao garoto. 
      - Nicolas. Meu conselheiro  o Jason. 
      - timo. Hoje, na reunio dos conselheiros, entregarei o canivete a ele e ele o devolver para voc, se achar que voc precisa dele esta semana... E voc, 
quem  sua conselheira? 
      - No sei. 
      - Qual o seu alojamento? 
      - No sei. 
      - Onde voc colocou o saco de dormir e sua mala? 
      - L perto do nibus. No sabia aonde ir. 
      - Como  o seu nome? indagou Cris e fechou os olhos aguardando a resposta. 
      J sabia qual seria. 
      - Jeanine Brown. 
      Nicolas foi correndo para o mato, e Cris suspirou. 
      - Venha comigo, Jeanine Brown. Eu sou Cris Milier, sua conselheira. Nosso alojamento fica no alto daquele morro. Vamos pegar as suas coisas. 
      - Que bom! exclamou a garota toda alegre. Eu estava com esperana de que voc seria minha conselheira. 
      Cris sentia que no poderia retribuir o elogio a quem estava prestes a tornar-se sua colega de beliche. S conseguiu murmurar: 
      - Bom. Ento vamos. Est quase na hora do jantar. 
      Felizmente todas as suas meninas apareceram para jantar. Amy queria sentar-se ao lado de Cris,  grande mesa redonda, e Sara brigou com Jocelyn para sentar 
do outro lado. De certa forma, era bom ter algum brigando por causa dela. Crs se lembrou de que esta era a primeira noite e a primeira refeio de muitas que compartilhariam. 
Esperava que nem todas fossem cercadas de tanta confuso. 
      A comida era melhor do que ela esperava. Algum pediu que lhe passassem o pur de ma, e Amy deixou um de seus brincos de melancia cair dentro da vasilha. 
Cris teve de "pescar" o brinco com a colher. Antes que pudesse impedi-la, Amy j tinha lambido o brinco e o colocara de volta na orelha. 
      - Temos hora livre depois da janta? perguntou Jocelyn. Ano passado tivemos. 
      - Sim, mas lembrem-se de que vocs tm de ficar nos limites do acampamento. Eu vou  reunio dos conselheiros, e se vocs tiverem algum problema, me esperem 
 porta do salo. Deve terminar em menos de uma hora. 
      - 'T certo, professora", papagueou Amy, o cabelo caindo no rosto e tocando na ponta dos clios. 
      A primeira pergunta do diretor de acampamento, Bob Ferrill, foi se os garotos sabiam o nome dos conselheiros. 
      - Sim, disse Cris, olhando para os outros cinco colegas. Mas uma delas fica me chamando de "professora". 
      - No se preocupe. J ouvimos nomes piores. Agora quero que cada um conhea o outro. Prefiro que me chamem de Deo Ferrill em vez de Bob ou Sr. Ferrill. Vamos 
comear com Cris. 
      A garota que estava ao lado de Cris chamava-se Jessica, e a outra conselheira era Diane. Os rapazes eram Mike, Bob e Jason. Cada um disse um pouco sobre si 
e onde morava. Mike e Bob eram universitrios da igreja de Cris. Jason vinha da mesma igreja que Jessica e Dane. 
      O Deo Ferrili falou sobre o horrio da noite, chamou novamente ateno para o regulamento do acampamento e em seguida orou. Cris achou tocante sua orao, 
principalmente porque ele orou por cada um dos conselheiros e acampados, como se a salvao de cada criana fosse a coisa mais importante da vida. Nesse momento, 
Cris compreendeu que conseguiria sobreviver  semana com ele do seu lado. 
      Encerrada a reunio, Cris se aproximou de Jason. 
      - Ol! Tenho uma coisa a lhe entregar. Esqueci l no meu alojamento.  um canivete bastante sofisticado. Confisquei de um dos seus meninos. O nome dele  Nicolas. 
      - timo. O Nick me disse que uma de suas meninas no larga do p dele. 
      Jason parecia nascido para ser conselheiro de acampamento. Tinha corpo de atleta e cabelo negro, curto, e um rosto que parecia esculpido em pedra. Os culos 
de sol estavam pendurados no pescoo, numa tira verde-non, e no pulso havia meia dzia de "pulseiras de amizade" que os acampados aprenderam a tranar nas aulas 
de artesanato. 
      - Pode me trazer na reunio  noite? Eu guardo para ele. 
      - Obrigada. 
      Ela foi ao alojamento para pegar o casaco e o canivete antes de comear o culto. Quando abriu a porta, trs garotas saram correndo como se fossem ratinhos 
fugidios. 
      - O que  que vocs estavam fazendo? indagou. 
      Correu os olhos pelo quarto e viu seu estojo de maquiagem aberto em cima da cama de Amy. 
      - Ei! O que  que esto fazendo com minhas coisas? 
      Olhou para seu beliche e viu a mochila aberta, com algumas de suas roupas puxadas para fora. 
      As trs culpadas, Sara, Amy e Jocelyn, estavam geladas em seus lugares. Sara falou: 
      - Voc disse que ficaria uma hora na reunio. No demorou tanto assim. 
      - Espere um pouco! disse Cris em tom firme, sentindo-se meio irritada. A reunio no tem nada a ver com isso aqui. Vocs mexeram nas minhas coisas sem a minha 
permisso. 
      Cris notou que Amy estava com as faces exageradamente rosadas e tinha manchas em volta dos olhos. 
      - Andou mexendo no meu estojo de maquiagem, Amy? insistiu Cris. 
      - Sim, "professora", mas eu ia devolver. 
      - No importa. No mexa nas coisas dos outros, est certo? Entenderam? 
      As trs, assustadas, fizeram que sim com a cabea. 
      - Amy, v lavar o rosto. Sara e Jocelyn, guardem minhas coisas do jeito que vocs as encontraram. Imediatamente! 
      As meninas saram de fininho. Sara ajoelhou-se para recolocar em ordem a mala de Cris. Comeou a fungar, resmungando baixinho: 
      - Voc  chata. Queria que no fosse nossa conselheira! 
      Cris estava prestes a dizer que era mtuo o sentimento, quando notou o que Sara estava vestindo. 
      - Por acaso esse casaco de jeans que voc est usando  o meu? 
      Sara arrancou o casaco do corpo e o jogou no cho. 
      - S estava experimentando. Eu no ia usar de verdade! 
      Cris pegou o casaco, deu nele uma sacudida e o vestiu, examinando em seguida a mochila,  procura do canivete. Encontrou-o no mesmo lugar. As meninas fecharam 
a mala de roupa, agora toda amassada, e se levantaram. Sara ainda chorava, e o beio de Jocelyn dava pena. 
      - Desculpe. No vamos mais fazer isso, disse Jocelyn. 
      Algo dentro de Cris pedia que ela lhes desse um abrao. Mas estava com raiva dessas pestinhas. Em vez disso, deu dois passos para trs e ordenou que pegassem 
seus casacos e sassem com ela para ir ao culto da noite. Talvez a mensagem as endireitasse. 
      As meninas obedeceram, ainda fungando. Amy encontrou- as  porta, a cara lavada e nos olhos uma expresso de susto. 
      - Pegue seu casaco e venha conosco, disse Cris com firmeza. 
      Caminharam morro abaixo at o salo de cultos, onde ela as forou a ficarem junto dela em vez de sentar-se ao lado das amigas. Os cnticos eram animados, mas 
as trs prisioneiras de Cris no cantaram. Ficaram de boca fechada durante toda a reunio. 
      Cris comeou a arrepender-se de ter sido to dura com elas. 
      Sabia que ainda estavam pensando no que acontecera no alojamento e no prestavam ateno  mensagem. Assim que a reunio terminou, ela ordenou que fossem para 
o refeitrio, onde seria servido o lanche da noite. 
      Pouco antes de deixar o prdio, Jason se aproximou de Cris e perguntou sobre o canivete. Ela desceu a mochila do ombro, para apanh-lo e, sem querer, balanando-a 
depressa demais, bateu com a mochila no peito do rapaz.
      - Desculpe! No percebi o quanto estava pesada! 
      Jason no pareceu incomodar-se. Estendeu a mo e deu um aperto amigvel no ombro de Cris. 
      - Se ficar carregando isso por a, voc vai acabar com espasmo muscular antes de encerrar o acampamento. 
      - Vou aliviar a carga hoje, prometeu ela. 
      Notou que as trs meninas se reaproximavam dela, aparentemente curiosas por saber o que se passava entre sua conselheira e esse cara grando que a tocava em 
pblico. 
      Cris entregou o canivete ao Jason, dizendo: 
      - Eu disse ao Nick que voc lhe devolveria no final do acampamento. 
      - Sem problema. Obrigado por ter pegado para mim. 
      - Posso experimentar seus culos de sol? perguntou Sara, olhando para Jason, os olhos cor-de-gengibre, reluzentes de admirao. 
      - Quem sabe amanh, disse ele. melhor voc ir at o refeitrio pegar uns biscoitos antes que os meninos comam tudo. 
      - Voc vem? perguntou Sara. 
      - Claro que vamos com voc, respondeu Jason. Vamos, Cris! Eles sempre tm bolachas de creme de amendoim na segunda- feira. So uma delcia. 
      - Percebo que voc trabalhou como conselheiro antes, comentou Cris, enquanto atravessavam o acampamento sob a escolta de trs pares de ouvidos super aguados. 
      -  o terceiro que eu venho. Comecei semana passada, e vou ficar at o final de julho. E voc? 
      -  a primeira vez que sou conselheira. No sei se vou me sair muito bem, confessou, ainda se sentindo mal pelo jeito como tratara as meninas. 
      - Ah! Voc  a melhor conselheira que j tivemos, no  mesmo? perguntou Sara s outras duas. E  bonita tambm, no acha, Jason? 
      Cris sentia o rosto corar. Como essas meninas mudavam to depressa a opinio que tinham dela? Antes que Jason conseguisse responder, Amy interferiu: 
      - E se tiver qualquer coisa que ela necessite aprender sobre o acampamento, voc pode ensinar. Ela  a nossa professora, e voc pode ensin-la. Sacou? 
      A essa altura, tinham chegado ao refeitrio, e Jason, educadamente, completou: 
      - Se tiver qualquer coisa em que eu possa ajudar, fale comigo. Tenho certeza de que ter uma excelente semana. 
      - Ela vai sim, no , "professora"? respondeu Amy com entusiasmo, e saiu correndo com as outras meninas, dando risadinhas. 
      Naquela noite foram necessrias duas horas para as meninas se acalmarem. Mesmo depois disso, Cris ainda temia que uma delas fingisse estar dormindo e sasse 
de fininho logo que ela pegasse no sono. Permaneceu meio sonolenta, meio acordada, procurando ouvir algum rudo no meio do silncio. 
      Depois de algum tempo, verificou o despertador com sua lanterna: 1:25. 
      Nunca vou conseguir acordar s seis! E ainda  a primeira noite! 
      A segunda no foi muito melhor. O dia previa muitas atividades para os acampados. Cris tinha certeza de que, com a natao, hipismo, arco e flecha e as horas 
de viglia at tarde da noite, as meninas iriam para a cama sem hesitar. 
      Mas no. Elas queriam conversar. Sobre meninos. 
      - No vamos precipitar as coisas, t bem? Vocs ainda so novas demais pra pensar em meninos, disse Cris, depois de conseguir que todas pulassem na cama e 
apagassem a luz. 
      - A gente j vai fazer 13 anos, observou Sara. No somos to novinhas assim. Quando voc comeou a namorar? 
      Cris teve de pensar. Lembrou-se de que fora a um acampamento de vero com sua amiga Paula, j com doze anos. Lembrou-se tambm de que ela e Paula haviam passado 
a maior parte daquela semana tentando atrair a ateno dos meninos. 
      - No tem importncia. Existe muito mais para se fazer no acampamento do que ficar preocupada com os meninos. Alm do mais, parece que nenhum deles se interessa 
por vocs. Sabe como , n? Meninas amadurecem mais depressa do que meninos. 
      - Sabemos isso, "professora", disse Amy em seu beliche, no outro lado do quarto s escuras. Conta pra gente coisas que a gente no sabe. 
      - Coisas que vocs no sabem? 
      - . Por exemplo, como  ser beijada pelo namorado, disse Sara. 
      - Ela no deixou bem claro que tinha namorado, interrompeu Amy. Acho que o Jason quer ser seu namorado. 
      Todas as meninas aprovaram o comentrio, ruidosamente e em unssino. 
      - Fiquem em silncio seno o Deo Ferrill vai vir como ontem  noite, e mandar a gente calar. No quero me dar mal de novo. 
      - Voc no acha ele bonito? indagou Jocelyn cochichando. 
      - Quem? perguntou Cris, fingindo-se de desentendida. O Deo Ferrill? Claro, suponho que seja, para um homem da idade do meu pai. 
      - No, ele no, Jason. 
      - Sabe de uma coisa, meninas? falou Cris em tom srio. Est tarde demais para a gente ficar conversando assim. Todas vocs se aquietem e vo dormir. 
      Seguiu-se uma rodada de reclamaes. 
      - Estou falando srio! insistiu ela meio zangada. Todo mundo se acomode agora mesmo! 
      Naquele instante houve uma batida forte na porta. A voz do Deo Ferrill ressoou; 
      - Est tudo bem a, Cris? 
      - Sim. As meninas j vo dormir agora, no , meninas? 
      Algum fingiu roncar alto e outra menina disse:
      - Ei Pare de bater em nossa porta! Estamos tentando dormir aqui!
      - Boa noite, senhoritas, disse o Deo Ferrill com firmeza. No quero ter de voltar aqui para verificar de novo se esto dormindo. 
      - No ser preciso, prometeu Cris. Vamos dormir agora. As meninas ficaram quietas ao ouvir o Deo Ferrill se afastar de sua porta. De repente, no meio do silncio, 
Sara gritou: 
      - Ei, Deo Ferrili! A Cris acha que, pra sua idade, voc at que  um velho bonito! 
      O travesseiro de Cris atravessou a escurido do quarto e acertou em cheio a boca da menina. 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Amar nunca  Demais
      6
      
      - Como esto as coisas, Cris? perguntou o Deo Ferrill no dia seguinte, na reunio dos conselheiros. 
      - Razoveis. Peo desculpas pelo comentrio de Sara ontem  noite. 
      - No se preocupe. Como as meninas parecem estar respondendo espiritualmente?
      - No muito bem, eu diria. Eu precisava de umas dicas sobre o que devo fazer. 
      - Como esto seus planos para os devocionais no alojamento? perguntou Jessica. 
      Ela parecia um modelo, postura reta e movimentos delicados. Tinha ganho a competio de natao do dia anterior. Seu cabelo cor-de-caramelo estava preso num 
rabo-de-cavalo, e a julgar por seu rosto delicado, ela devia estar seguindo um programa rgido de tratamento de pele. Sem um pingo de maquiagem, estava lindssima. 
      - Os devocionais no alojamento? 
      - Os cultinhos do quarto. O que voc est fazendo com as meninas  noite antes de dormir? 
      - Ralhando com elas, respondeu, meio na brincadeira, meio sria.
      - Os devocionais ajudam as garotas a se acalmarem. Neles a gente consegue que elas se abram mais. Vamos conversar na hora livre, hoje  tarde, e posso lhe 
dar algumas idias. 
      - timo. Obrigada! 
      Cris teve a impresso de ver o Jason sorrindo para ela. Ser que era porque ela era inexperiente ou porque ele estava querendo ser agradvel? A reunio terminou 
com um maravilhoso perodo de orao em favor dos acampados. Pelo jeito como todos oravam, Cris estava certa de que algo de valor eterno teria de acontecer logo 
com "suas" meninas. 
      Naquela manh, no recreio, as meninas de Cris disputaram com os meninos do Jason no treino de arco e flecha. Ela no atirava flecha desde que tinha 13 anos. 
Felizmente, "suas meninas" achavam que ela era a "entendida" em tudo e no momento ela apreciaria todo voto de confiana que elas lhe dessem. 
      As garotas fizeram fila, encarando o alvo afixado ao monte de feno. Cris pegou um arco e mostrou como se segurava e mirava o alvo. A flecha voou uns trs metros 
e parou perigosamente perto do p de Jason. Os acampados caram na gargalhada enquanto Cris, de rosto vermelho, foi at o lado dos meninos pegar a flecha extraviada. 
      - Desculpe, murmurou para Jason. No sei o que deu errado. 
      - O seu cotovelo estava baixo. Ergue mais, assim, demonstrou Jason com o arco na mo. 
      Cris tentou imitar sua postura e posio do cotovelo. Parecia que no estava certo. 
      - Assim? Ou mais alto? 
      - Deixa eu lhe mostrar pediu Jason, largando seu arco e aproximando-se dela. 
      Colocou o brao musculoso em volta de seu ombro e a mo sobre a dela. 
      - Puxe para trs, assim. Mantenha o cotovelo alto. Est sentindo? 
      Cris comeava a sentir alguma coisa, sim; os olhos de onze meninas pr-adolescentes vidrados nos dois. Sabia que jamais conseguiria convenc-las de que ele 
estava apenas tentando ajud-la.
      - Agora experimente! falou Jason dando um passo para trs. Cris soltou a corda retesada e a flecha sibilou no ar, atingindo a parte branca do crculo. 
      - Muito bem! exclamou o rapaz. Viram isso a, meninos? 
      Dois dos garotos maiores disseram: 
      - Claro que vimos, Jason. Tem certeza de que no quer que a gente v embora para vocs dois ficarem a ss? 
      Jason fingiu no ouvir a pergunta. Colocou os braos no ombro do primeiro garoto da fila e mostrou a posio correta do mesmo jeito que tinha mostrado a Cris. 
Ela aproximou-se da sua turminha, que mais parecia um bando de matracas, com uma expresso sria no olhar. 
      - Quem vai ser a primeira? 
      Olhar meio perdido, meio tonto, as meninas cochichavam entre si. 
      - Sara! Venha voc primeiro. 
      Cris colocou o brao em volta de Sara, imitando a posio correta do arqueiro, ensinada pelo Jason. Esperava que as meninas pensassem que era assim que todo 
mundo aprendia a atirar a flecha, com o brao no ombro. Pacientemente, ps a mostrar como se atira. Elas pareciam querer agradar e Cris comeou a encar-las por 
outra perspectiva. No as via mais como pestinhas, mas como bebs longe de casa que precisavam de um grande abrao. 
      Quando j se aproximava o final do exerccio, Cris olhou para o lado dos meninos e viu que Jason a observava. Ele sorriu e fez-lhe um sinal positivo. 
      Ela sentiu que nos ltimos dias crescia sua admirao por Jason. Ser que ele gostava dela? Ser que ficava olhando para ela no refeitrio? Ser que ele estaria 
na piscina no horrio livre? 
      Com o "positivo" do Jason, essa admirao transbordou, enchendo seus pensamentos. Jason, Jason. Nenhum outro rapaz, no mundo inteiro, existia naquele momento. 
S ele. 
      No almoo ela procurou ver onde ele estava sentado antes de escolher sua mesa. A regra era um conselheiro em cada mesa. Ela pensou que, se conseguisse v-lo 
de imediato, poderia sentar-se  mesa prxima da sua, de maneira a ficarem de costas um para o outro. O plano deu certo. Havia uma mesa vazia ao lado da mesa dele, 
e uma cadeira vazia atrs da sua. Ela sentou- se em silncio, fingindo no perceber que ele estava l. 
      - Ei, Cris! Voc viu o resultado final da competio de arco e flecha? 
      - Ol, Jason! saudou, sentindo-se como uma de suas meninas cheias de manha. No, no vi. Como foi? 
      - Suas meninas ganharam dos meus garotos com uma diferena de dez pontos. 
      - Verdade? Nunca imaginei que isso pudesse acontecer! exclamou Cris sorrindo. Obrigada por toda a sua ajuda. 
      - De nada. Disponha. 
      Naquele momento as portas do refeitrio se abriram e os acampados entraram. Corriam como porquinhos-da-ndia em fuga, sem saber para onde iam, mas alucinados 
para chegarem na frente. As meninas da Cris se acomodaram  mesa em tempo recorde e ficaram se acotovelando. 
      Jessica veio at a mesa de Cris, acompanhada de duas admiradoras, agarradas uma em cada brao. 
      - Onde vamos conversar depois do almoo? indagou ela em meio ao barulho. 
      Cris no sabia, e olhou para Jessica pedindo sugesto. 
      - Que tal o salo de cultos? 
      Cris concordou e Jessica cedeu  persuaso de seu pequeno f-clube. 
      Quando elas se encontraram, conforme planejado, Cris ficou olhando por cima do ombro para ver se Jason a estava seguindo. Ele parecia ir ao galpo de exposio 
de artesanato. Talvez ela devesse ir para l depois que conversasse com Jessica - verificar se alguma de suas meninas estaria ali, naturalmente. 
      - Primeiro, disse Jessica, quando se sentavam no velho sof, no estou tentando lhe dizer como deve agir com as suas meninas. Voc est fazendo um excelente 
trabalho. No quero interferir nem lhe ensinar o que fazer. 
      - No pensei isso de jeito nenhum! Preciso que me ajude mesmo! 
      Durante meia hora Jessica deu-lhe algumas sugestes prticas sobre como preparar um bom devocional e falou do que fizera no ano passado quando ficara com as 
meninas de 12 anos, e que tinha dado resultados. 
      - Este ano, na verdade, est mais fcil por causa do grupo que tenho. Elas so as mais novas, as que esto com 9 para 10 anos. Algumas esto tendo dificuldades 
por estar com saudades dos pais. Mas no so muito boas nos cuidados higinicos, a no ser que a gente lembre a elas o que fazer. Assim mesmo, no todo, prefiro as 
mais novinhas. 
      - Elas parecem gostar demais de voc. 
      - Bem, acho que aprendi muito com algumas falhas que cometi no ano passado. S percebi o que estava fazendo errado quando o acampamento se encerrou, e este 
ano estou tentando agir de maneira diferente. 
      - Posso perguntar em que voc errou no ano passado? indagou Cris, em tom cauteloso. 
      Jessica parecia to acessvel, que ela sentiu que no haveria problema em fazer uma pergunta pessoal. 
      - Cris, eu lhe digo que h uma coisa que voc nunca pode fazer. 
      Naquele instante, a perseguidora de meninos, Jeanine, rompeu porta adentro, empunhando um bon de beisebol. Com gritos estridentes correu para trs do sof 
e implorou: 
      - No deixe ele me pegar! 
      Fora da porta, Nick obedecia ao cartaz que dizia "proibido aos acampados" e ficou do lado de fora, olhando para dentro, a ver se achava Jeanine. 
      - Chega! gritou Cris, saltando e exigindo que Jeanine devolvesse o bon. J foi longe demais. Me d o bon. Agora largue o pobre do menino e no pegue mais 
nada do que  dele. Entendeu? 
      Jeanine entregou-lhe o bon, mas parecia um cachorrinho espancado. Com sua voz miudinha, murmurou: 
      - Desculpe! 
      Cris saiu pela porta e entregou o bon ao Nick, que parecia um pouco irritado. Dois dos seus amigos colocaram-se do seu lado para dar-lhe apoio moral. 
      - Quer mandar ela parar? pediu o garoto. 
      - Sabe de uma coisa, Nicolas? S  brincadeira se os dois brincarem. Se voc parar de correr atrs, ela no vai se divertir mais, e garanto que ela pra. 
      Um dos guarda-costas do Nick murmurou: 
      - Duvi-d--d. 
      Nick colocou o bon na cabea e os trs foram para a quadra de beisebol. Cris assistiu a tudo e quase soltou uma gargalhada. Eram verses em miniatura de Rick, 
Douglas e Ted. 
      Elefantes, macacos e cobras. Nossa! 
      Quando Cris voltou, viu que Jessica estava sentada ao lado de Jeanine no sof. Jessica, conselheira experiente, afastava o cabelo do rosto da menina e conversava 
baixinho com ela. Jeanine bebia cada palavra em silncio. Depois anuiu: 
      - Est certo, vou tentar. 
      Jeanine deu um salto e olhou para Jessica de uma maneira que jamais teria olhado para Cris. Verdadeira admirao. Depois saiu correndo. 
      - O que voc disse a ela? indagou Cris sentando-se no sof. 
      - Eu lhe falei que, em vez de tirar as coisas do Nick, talvez ela devesse experimentar dar-lhe alguma coisa para atrair a ateno dele. Ela foi para o centro 
de artesanato fazer uma pulseira da amizade. 
      - Brilhante. Como voc pensou nisso? 
      - Era o que eu ia dizer-lhe quando ela entrou correndo. Uma coisa que temos de fazer  amar muito. Por mais que as amemos, nunca estaremos amando demais. 
      - Amar nunca  demais, repetiu Cris. 
      - . Quando acabou o acampamento no ano passado, percebi que eu tinha feito muitas coisas "certas" como conselheira, mas no havia amado as meninas tanto quanto 
poderia. Sabe o que quero dizer? 
      Cris lembrou-se de quando pegara as meninas mexendo em sua roupa. Sim, sabia bem o que Jessica queria dizer. 
      - Sabe, a gente no pode discutir com o amor. Quando o acampamento acabar, do que  que as meninas se lembraro? das briguinhas? da corrida das equipes no 
ltimo dia? do que disse o pregador? 
      - Tenho certeza de que se lembraro um pouco disso, disse Cris. Eu me lembro um pouco dos meus tempos de acampamento.
      - Mas de que  que voc mais se recorda, alm do acampamento? Quero dizer, em toda a sua vida? Acho que todos ns nos lembramos das pessoas que nos amaram. 
      Cris acatou bem o conselho de Jessica. Sabia que sua nova amiga estava certa. Aps a conversa, andando animadamente at o centro artesanal, Cris ficou a imaginar 
como aplicaria esse conselho ao Jason. O que ele lembraria a respeito dela, aps o acampamento? 
      Outros pensamentos colidiam em sua cabea, como se todas as emoes se tivessem juntado e estivessem sendo submetidas ao tribunal de sua conscincia. Ela  
que estava sendo julgada. A voz do promotor dizia que ela era tola e imatura por estar correndo atrs de um cara no acampamento quando tinha o Ted esperando-a em 
casa. Outra emoo entrou como testemunha de defesa e disse que ela tinha o direito de cultivar relacionamentos com qualquer rapaz que quisesse, e isso tudo fazia 
parte do acampamento. 
      No momento em que ia entrar no centro artesanal, Cris imaginou as meninas de sua cabana como juradas. Suas frgeis vozes se ergueram em unssono dizendo "Inocente" 
bem alto em sua mente. Agora, sentia-se livre para entrar no centro e ver o que aconteceria a seguir. Foi logo avistando o Jason. Ele ergueu os olhos e a viu no 
mesmo instante. 
      - Cris! saudou-a. Exatamente a pessoa que eu queria ver! Voc pode ajudar essas meninas a fazer essas pulseiras? Eu preciso ir ver os meus garotos na piscina 
dentro de cinco minutos. 
      Sara, Amy e Jocelyn sorriram generosamente, em sinal de aprovao, e comearam todas a falar ao mesmo tempo. Cris aproximou-se da mesa onde as trs estavam 
quase terminando de tranar as pulseiras da amizade. 
      - Pode amarrar a minha? perguntou Sara. Eu terminei. Gostou? Est bonita? 
      - Est linda, disse Cris, amarrando as duas tiras de couro no fino pulso de Sara. Voc fez um excelente trabalho. 
      Jason deu um aperto no ombro de Cris, e disse: 
      - Muito obrigado pela ajuda aqui. Eu a vejo mais tarde. Talvez na piscina? 
      - Claro, a gente vai  piscina depois, respondeu Amy pela Cris. No vamos, "professora"? J acabamos, no  mesmo, gente? 
      - Ento vejo voc depois, disse Jason olhando por sobre o ombro ao tomar a direo da piscina. 
      - Acabei, anunciou Sara. 
      Vendo que o rapaz j se distanciara e no a ouviria, a garota sorriu para Cris, e falou: 
      - Jason perguntou se voc tem namorado e ns dissemos que no, porque voc nunca disse se tem namorado ou no. A gente disse para ele que voc gosta dele e 
ele disse que gosta de voc. 
      As trs meninas cercaram Cris. Seus olhos reluziam. 
      - E ento, voc gosta dele? perguntou Amy. Vai beijar ele? 
      Cris mal podia acreditar no que ouvia. Resolveu que uma resposta forte e direta seria melhor. 
      - Acho o Jason um cara muito legal.  um crente firme e isso  uma qualidade muito importante para se procurar num rapaz.
      - Ns sabamos! gritou Sara. Sabamos que voc gostava dele! Vamos agora para a piscina? 
      Jocelyn e Amy estenderam os braos para Cris amarrar as suas pulseiras e depois subiram o morro correndo atrs de Sara para irem vestir o mai. 
      Cris percebeu que Jeanine devia ter se distrado, porque no estava fazendo sua pulseira para dar ao Nicolas. Ou, ento, ficara to entusiasmada, que j tinha 
terminado e correra para apresent-la ao "namoradinho". 
      Cris levou alguns minutos fechando o centro artesanal e depois seguiu morro acima. Encontrou-se com as meninas no meio do caminho, j vestidas de traje de 
banho e com toalhas na mo. 
      - A gente se v l! gritaram elas, e desceram numa desabalada correria na direo da piscina. 
      Quando Cris chegou  piscina pouco depois, elas estavam fazendo guerrinha de gua com Jason e os "seus meninos". No estava com muita vontade de "entrar nessa 
batalha". Felizmente, o salva-vidas apitou e mandou que parassem a baguna e sassem da piscina. Ela estendeu a toalha sobre o cimento quente. 
      Seus trs ratinhos afogados foram os primeiros a sair, reclamando e argumentando que os meninos no estavam sendo justos. Elas se enrolaram em suas toalhas 
e sentaram-se ao lado de Cris, lanando comentrios ferinos aos meninos. 
      Jason se postou entre os seus meninos tentando aquiet-los. Olhou para Cris, sorriu e deu de ombros, como quem diz: "O que se pode fazer com esses palhaos?" 
Cris retribuiu-lhe o sorriso. 
      - Ele gosta de voc, comentou Sara, erguendo a mo esquerda de Cris e pressionando suas unhas. So de verdade? Quer dizer, so suas? 
      - Sim, so minhas, e so de verdade. 
      - To compridas exclamou Sara, enquanto Amy e Jocelyn se aproximavam mais para apalpar as unhas tambm. 
      - Mais ou menos, replicou Cris. 
      - So mais compridas que as minhas, disse Amy. Como a gente faz pra elas crescerem assim? 
      - Primeiro, tem de parar de roer, respondeu Cris. 
      - Eu t sempre roendo as minhas, confessou Jocelyn. 
      As meninas continuaram comparando suas unhas com as de Cris, e entre si mesmas. Cris ergueu a vista por cima e notou que Jason conversava com o salva-vidas. 
Este apitou, dando sinal para que todos na piscina parassem onde estavam. 
      - Vamos colocar a rede de vlei no lado raso, anunciou o salva-vidas. Todo mundo que quiser jogar vlei aqutico passe para o lado de l. O resto fica no fundo. 
      Aparentemente, fora idia do Jason, porque ele j tinha tirado a rede do armrio e os meninos dele estavam ajudando a armar o "campo". 
      - Eu no quero jogar com eles, disse Amy. Eles sempre roubam. Ns vamos ficar aqui com voc. 
      O f-clube de Cris colocou as toalhas perto da dela, respingando gua nela.
      - Quer jogar? perguntou Jason assim que a rede foi instalada.
      - No! respondeu Sara, agarrando o brao de Cris. 
      As outras garotas repetiram-lhe o gesto. 
      - Ela vai ficar aqui conosco, concluiu. 
      Cris teve uma enorme vontade de se livrar desses carrapatos encharcados que a cercavam, mas, lembrando-se do conselho de Jessica, resolveu ficar. Era a oportunidade 
de demonstrar que as amava. Alm do mais, no era l essas coisas em vlei de terra, como iria se sair no aqutico? Sabia que na gua seria bem pior. 
      Agora era a vez de Cris sorrir e dar de ombros para o Jason, que lhe fez sinal de "tudo bem" e jogou a bola na gua. O resto da tarde, ela ficou perto da piscina, 
olhando o Jason, conversando com suas meninas e esperando que ele fosse conversar com ela. Ele no foi, mas olhava muito para seu lado. 
      No jantar, Cris chegou no refeitrio antes do rapaz e sentou- se numa mesa vazia e ficou de olho na porta. Assim que ele chegou, foi logo para perto dela. 
      - A est voc, disse ele, sentando-se a uma mesa prxima. Suas meninas me disseram que voc ainda no tem uma pulseira dessas. 
      Ele desamarrou com os dentes uma das pulseiras de couro do seu pulso e ofereceu-a a Cris. 
      - Enquanto a gente no ganhar uma dessas no pode se considerar conselheiro oficial do Acampamento Wildwood. 
      - Obrigada! falou Cris, estendendo a mo esquerda para o Jason amarrar a pulseira. 
      A sua de ouro, "Para Sempre", estava no pulso direito, e ela achava que as duas pulseiras no combinavam. Enquanto Jason amarrava as tirinhas, a porta do refeitrio 
se abriu e a manada de acampados estourou. As meninas de Cris correram para a mesa ainda a tempo de ver o rapaz amarrando a pulseira e dando um grande sorriso, que 
ela retribuiu. Foi quanto bastou para que comeassem a cochichar: "Agora os dois esto namorando." 
      As pequenas "casamenteiras" fizeram tudo que podiam para que Cris e Jason se sentassem juntos durante o culto e caminhassem lado a lado para o refeitrio  
noite, na hora do lanche. Cris tinha de admitir que era divertido fazer o papel de herona. Seis de suas garotas agora ficavam grudadas nela e a conduziam pelo brao 
para onde queriam, dizendo-lhe que ela estava muito bonita e que o Jason gostava dela. 
      Ele tambm parecia estar gostando do papel de heri. Dava para notar que j tinha passado por essa espcie de tratamento muitas vezes antes, em virtude dos 
anos de experincia como conselheiro. Cris sabia que devia ser assim a cada acampamento. Tambm concluiu que era apenas uma numa longa fila de conselheiras destinadas 
a "namorar" o Jason durante uma semana. 
      No tinha importncia. Estava se divertindo demais para pensar no final desse jogo. 
      Na manh seguinte encontrou dificuldade em acordar. Era quarta-feira, meio da semana. Foram avisados na reunio de conselheiros que era a que comeariam a 
sentir o peso da semana. Mas as meninas pareciam no ter problemas para acordar. Cris cobriu a cabea, tentando mais alguns minutos de sono. 
      - Voc no vai tomar banho? perguntou Sara, batendo no ombro de Cris. Voc, quando acorda, vai sempre para o chuveiro. 
      - Me d mais cinco minutos. S cinco. 
      - Mas j so quase 6:30, disse uma das garotas. Voc tem de chegar ao refeitrio antes das sete, para pegar uma mesa perto da do Jason. 
      - Ah! Tenho, hein? perguntou, afastando o saco de dormir do rosto e olhando para os sete pares de olhos que a fitavam. 
      - Sim, ele gosta mesmo de voc e vai ficar zangado se voc no chegar na hora. 
      - Ah,? 
      Cris retirou as pernas do seu casulo quentinho, sentindo nelas o ar frio da manh, e em seguida pisou o cho de madeira. 
      - Escutem, meninas, esse quarto est uma baguna total. Ontem recebemos s cinco pontos pela limpeza. Hoje quero que a gente ganhe os dez pontos. Quer dizer 
que cada uma tem de guardar suas coisas e cooperar na limpeza. 
      - Aqui! Veste isso, disse Amy, puxando uma camiseta corde-rosa da mala de Cris e, colocano-a sobre seu saco de dormir, tentou alis-la com a mo.
      
      - E o short jeans, aconselhou Jocelyn. 
      - Est bem, est bem! Aprontem-se, meninas. E no se esqueam de arrumar o quarto. 
      Cris estava comeando a tomar ojeriza a essa parte do dia, quando no podia ir ao banheiro ou lavar o rosto sem enfrentar o frio da manh ou a caminhada at 
os sanitrios. Vestiu-se depressa, pegou sua ncessaire e a toalha e dirigiu-se  porta. 
      - Ns vamos com voc, gritaram quatro meninas. Espera a!
      Ficou em p do lado de fora do alojamento, tremendo e esperando sua turma entrar nos eixos. Sete meninas a acompanharam, disputando-lhe um brao, enquanto 
batiam a trilha de terra. 
      Chegando ao banheiro, l encontrou Jessica com o seu f-clube. Tinha uma aparncia reanimada e bonita, pronta para enfrentar o dia. 
      - Como  que voc consegue isso? perguntou Cris. 
      - O qu? 
      - Como consegue ficar to desperta? Eu estou exausta. 
      - Finalmente, ontem consegui que todas dormissem na hora. Fiz o devocional mais curto. E o seu, ontem, como foi? 
      Cris molhou rpido o rosto, para no sentir muito o impacto da gua gelada. 
      - Brr! exclamou ela, apertando contra o rosto a toalha que cheirava a mofo. Bem, acho que foi jia. 
      As acampadas estavam correndo pelo banheiro, Algumas se achavam perto da pia de Jessica e Cris, imitando-as ao jogar no rosto a gua gelada e exclamando: "Brr!" 
      - Foi timo! falou Jocelyn respondendo por Cris. Conversamos a noite toda. 
      - Coloquei em prtica a sugesto que voc me deu de procurar conhec-las melhor, pedindo que cada uma me falasse sobre sua famlia. Foi longo demais, mas elas 
todas falaram bastante. Acho que as conheo muito melhor agora. 
      - E ela gosta mais da gente, tambm, acrescentou Amy. No  mesmo, "professora"? 
      Jessica e Cris sorriram e se entreolharam. 
      - Por mais que amemos, nunca ser demais, cochichou Jessica no ouvido de Cris. 
      E juntando suas coisas, concluiu:
      - Voc est fazendo um excelente trabalho, Cris. A gente se v no caf da manh.
      Cris sentiu-se reanimada, encorajada. Talvez fosse sobreviver a semana, afinal.
      
      
      
      
      
      






      A canoa Virou
      7
      
      A quarta-feira passou depressa com a rotina normal das reunies de conselheiros, estudo bblico pela manh, recreao e a tarde livre. Cris tencionava passar 
a tarde   beira da piscina, com suas meninas, j que Jason dissera que ia para l. Mas quando entrou na cabana para pegar o mai, encontrou Ruthie chorando. 
      Cris sentou-se ao lado dela, abaixando a cabea para enfi-la no vo das duas camas. Colocou a mo nas costas da menina e massageou-a devagar. 
      - O que foi, meu bem? 
      O choro de Ruthie se transformava em pequenas fungadas. 
      - Ningum aqui gosta de mim. 
      - Gosta sim. Todo mundo gosta de voc. Eu, por exemplo, gosto muito de voc. 
      - Mas todas tm amigas aqui. Sentam-se juntas e fazem as coisas juntas no horrio livre. Eu no tenho ningum. Ningum me chamou. Elas todas vo pra l sem 
me convidar. 
      Cris continuou massageando. E passava tambm a mo no seu cabelo castanho-claro. Disse apenas: 
      - Sinto muito! 
      Pensou nos muitos conselhos que poderia dar a Ruthie, mostrando-lhe que a melhor atitude seria ser mais amigvel, e que no adiantava ficar deitada com pena 
de si mesma quando havia tanta coisa a fazer l fora. Mas lembrou-se das vezes em que se sentira s, em que fora deixada de lado e ficara triste. O melhor mesmo 
a fazer era estirar-se na cama e derramar umas boas lgrimas. 
      No gostava quando sua me vinha dizer-lhe como deveria se comportar ou como deveria sentir-se. Cris sempre desejou que sua me a deixasse chorar e ficasse 
triste com ela por alguns minutos. 
      Ficou quieta, massageando as costas de Ruthie e esperando que ela parasse de chorar. Finalmente, a garota deu mais algumas fungadas no travesseiro e parou. 
      - Toma aqui! falou Cris oferecendo-lhe sua caixa de lenos de papel. Use um desses e no o seu travesseiro. Voc vai ter de dormir nele  noite, lembra? 
      Ruthie pegou o leno e assoou o nariz. 
      - Voc acha que eu sou um beb, no ? 
      - De jeito nenhum, replicou Cris, dando-lhe outro leno. Acho que voc  uma linda jovenzinha que est se tornando uma bela mulher. 
      A menina assoou forte e, rindo-se, pediu desculpas pelo barulho. 
      - Tudo bem. Est melhor agora? 
      Ruthie fez que sim e sorriu. 
      - Muito bem. E agora, o que voc tem vontade de fazer? Vamos fazer juntas. 
      - Eu queria andar de canoa, mas ningum mais queria. 
      - Eu vou com voc. 
      - Tem certeza? Voc no prefere ficar com o Jason? 
      - No. Prefiro ficar com voc. 
      Ruthie pulou da cama, com nimo renovado, e foi  porta. Cris seguiu atrs, sentindo-se contente de ver a menina reanimada. Na caminhada at a lagoa, Ruthie 
apertou-lhe a mo. Cris retribuiu-lhe o gesto. 
      - Como  que voc sabe direitinho o que tem de fazer quando uma menina est chorando? 
      - Acontece que sou especialista nesses probleminhas. Quando eu tinha a sua idade chorava toda hora. 
      - E no chora mais? 
      - Claro que ainda choro, mas no tanto. Ainda tenho alguns desses problemas que me levavam a chorar no travesseiro quando era pequena, mas no choro mais tanto 
quanto antes. 
      Ruthie soltou a mo de Cris e correu at a orla da mata, onde pegou uma pequena flor amarela e entregou  jovem. 
      - Obrigada, Ruthie, falou Cris, colocando a flor na beira da sua tiara, logo acima da orelha. E voc deve gostar muito do seu nome. Tem uma Rute na Bblia, 
sabia? Tem um livro inteiro sobre ela, porque ela foi uma amiga muito leal de outra pessoa. E  assim que vou me lembrar de voc, Ruthie, minha amiga leal. 
      A garotinha deu um sorriso largo, o que raramente fazia, pondo  mostra o aparelho dos dentes. Nada tinha da menina de cara amarrada que dissera detestar seu 
nome. Parecia outra. 
      Caminharam pela clareira at a praia de cascalhos, ao lado da lagoa. Ruthie logo notou que duas das meninas do alojamento delas, Sara e Jeanine, estavam l. 
Cris pensou que, se Jeanine estava ali, Nick provavelmente estaria por perto. Da a pouco viu o garoto com seus dois amigos no lugar onde guardavam os barcos, e 
parecia que retiravam uma canoa. 
      - Vai perguntar s duas se elas querem dar um passeio de canoa conosco? Tenho a impresso de que pelo menos uma delas iria querer. 
      Ruthie correu para convidar Jeanine e Sara enquanto Cris foi pegar uma canoa. S quando chegou na barraca de guardar os barcos  que notou que Jason estava 
atrs da janela, distribuindo coletes salva-vidas. 
      - Cris, voc  exatamente a pessoa que eu queria ver! Que tal levar essa turma para andar de canoa? Eu disse ao Mike que o substituiria aqui at as quatro. 
      - Ela vai nos levar para passear de canoa, respondeu Jeanine, encostando-se na janela com Ruthie e Sara. 
      - Podemos levar um dos meninos, acrescentou Jeanine, dando um sorriso para o Nick. 
      - No, disse Jason. S quatro pessoas por canoa. 
      Jason olhou para o relgio e em seguida para o Nick e seus amigos, e disse: 
      - Eu no devia fazer isso, mas como vocs j remaram antes e sabem bem essas coisas, vou deixar que remem sozinhos numa canoa. Cris, fique de olho nos trs, 
e procure ficar perto deles na lagoa, em caso de acidente. 
      - Claro, est timo. 
      - E eu vou ficar aqui, olhando vocs, disse Jason, passando-lhes os coletes. 
      Pegou no brao de Cris quando ela estendeu a mo para pegar seu colete e deu um aperto. 
      - Muito obrigado. Voc  um doce, falou. 
      As meninas ouviram o comentrio e se acotovelaram a ela quando se encaminhavam at a canoa. 
      - Ele gosta de voc comentou Jeanine em alto e bom som. 
      - Shhhh! fez Cris e, chegando bem perto de Jeanine, perguntou: E a, como vo as coisas entre voc e Nick? 
      - Acho que vo bem. Hoje ele no bateu em mim nenhuma vez. 
      - E voc no tirou nada dele? 
      - No. Eu dei pra ele uma pulseira, que nem a Jessica disse, mas ele no est usando ela. 
      - Tudo bem, exclamou Cris, dando-lhe um aperto em volta do gordo colete alaranjado. Estou muito satisfeita com voc. Est indo muito bem. 
      O sorriso de Jeanine brilhou. 
      A turma de Cris demorou mais do que os meninos para zarpar com a canoa. De repente, havia ali quatro capites e nenhum marinheiro. Jason foi ajudar, dando-lhes 
um bom empurro. Cris sentou-se na frente, remo na mo, e Ruthie no meio. Jeanine e Sara insistiram em partilhar o banco de trs com um remo na gua. 
      - Verifiquem se esto remando na mesma direo! recomendou Jason quando comeavam a balanar sobre a calma lagoa. 
      - Tchau! gritou Sara, dramaticamente, pondo-se de p para acenar para o Jason. 
      - Sente-se! gritaram todos ao mesmo tempo, pois a canoa comeara a virar. 
      - Escutem aqui, disse Cris por cima do ombro. Vocs todas me sigam. Se meu remo estiver na gua deste lado, coloquem os seus do mesmo lado. E faam o mesmo 
se eu trocar de lado. 
      Cris mostrou-lhes como deviam coordenar os remos, esperando que ningum suspeitasse que ela j no remava desde a idade delas. E isso foi em Minnesota, com 
tio Tom ao remo. 
      A "tripulao" obedeceu s ordens, e tudo parecia tranqilo, sem problemas. 
      - Vamos alcanar os meninos, disse Jeanine, remando animada do seu lado. 
      A canoa deu uma rpida guinada  esquerda, em direo  praia. 
      - Temos de remar juntas, disse Cris. Lembram-se do que eu falei? Sigam-me. 
      Pegou o remo e o meteu pelo lado esquerdo, puxando a gua trs vezes para corrigir-lhe o curso, tomando a direo dos meninos. A mudou o remo para o lado 
direito, mas as meninas no estavam prestando ateno. Sara e Ruthie continuaram remando no lado esquerdo. Parecia que nem saam do lugar. 
      Cris deu mais instrues. A canoa vagou devagarinho para o centro da lagoa, meio sem rumo. 
      - Olha os patos! exclamou Sara. Esto chegando pertinho da canoa. Vamos parar aqui pra olh-los. 
      - No, no pode. Temos de nos aproximar dos meninos, objetou Jeanine. Lembre-se do que o Jason disse. Temos de ficar perto deles, e eles esto indo para o 
outro lado da lagoa. 
      - O que  que tem daquele lado? perguntou Cris. 
      -  onde tem a "caada" dos conselheiros no ltimo dia, explicou Sara. Todos os conselheiros vo para l de canoa e se escondem, e ns corremos para procur-los. 
Quem achar seu conselheiro primeiro tem que pegar a fita dele e correr de volta para a barraca dos barcos. 
      - Mas os conselheiros tentam ganhar da meninada, acrescentou Jeanine. Voltam s canoas e tm de fincar as bandeiras na casa dos barcos. 
      - Parece muito divertido. 
      - Quem perde tem que servir o jantar no banquete da ltima noite. Temos os capites das equipes, e se os acampados perderem, servem os conselheiros, sentando-se 
todos juntos em torno de uma mesma mesa. 
      - E se os conselheiros perderem? perguntou Cris. 
      - A eles tem que servir todas as mesas. 
      - Bem, espero que ganhemos. Gostaria muito que algum me servisse o jantar. Remem  direita, meninas! Estamos indo longe demais. 
      Elas atravessaram o lago, melhorando a remadura, at quase se alinharem com os meninos. Cris sentia um aperto nos msculos do brao. Nunca imaginara que remar 
doesse tanto, nem que esse pequeno lago fosse to difcil de atravessar. 
      - Como esto indo a? gritou Cris para os meninos, quando estavam perto deles. 
      - Estamos pescando, disse Nick. 
      Ele puxou para fora d'gua um pedao de pau com uma corda marrom atada a uma das extremidades. Havia uma minhoca na ponta da corda. Cris achou a vara de pescar 
a l "Tom Sawyer" bem boiada. 
      - Aaaai! exclamou Sara.  uma minhoca! 
      - Adivinhona! disse um dos meninos. 
      - Detesto minhocas, observou Sara. 
      Nick apontou a vara de pescar na direo da canoa das meninas, para que Sara avistasse a minhoca mais de perto. Passou-a rente ao rosto da garota, e ela gritou, 
assustada. 
      - Ei! exclamou Jeanine ao ver a minhoca de perto.  a pulseira da amizade que eu lhe dei! 
      - Valeu para alguma coisa, no  mesmo? comentou Nick, dando risada. 
      - Quero de volta! Dei duro para fazer. No  para ser linha de pescar! 
      Jeanine ficou de p e tentou pegar a linha, que Nick logo puxou. Antes que Cris pudesse prever o que estava acontecendo, Jeanine caiu na lagoa. 
      - Jeanine! gritou Cris, virando-se e tentando firmar a canoa. 
      Sara ficou de p tambm, procurando estender a mo para Jeanine. 
      Ruthie inclinou-se para trs, buscando compensar o peso de Sara, que se jogara para um lado, mas compensou demais. A canoa balanou para a esquerda e Ruthie 
caiu na gua. Em seguida, ela virou para a direita e l se foi Sara tambm. 
      - Meninas! gritou Cris inutilmente. 
      A canoa balanava para um lado e para outro. Cris tentava firm-la, enquanto as trs ratinhas molhadas, sustentadas na superfcie por seus coletes, procuravam 
entrar no barco por lados opostos. As meninas riam-se e no pareciam achar ruim o banho inesperado. 
      - Esperem! Parem! No est dando certo. J que estamos to perto da margem, por que no nadam at a praia? Eu pego vocs l. 
      Rindo-se ainda, as meninas nadaram como cachorrinhos a curta distncia uma da outra at a praia, e ficaram esperando Cris, ensopadas e tremendo. 
      Os meninos riam tanto, que no ouviram Cris pedir que ficassem parados, enquanto ela ia atrs das meninas. Devem ter resolvido que a melhor coisa a fazer seria 
se afastarem ao mximo das meninas, pois sabiam que elas iriam tentar se vingar. Ento eles se afastaram, remando a toda de volta  casa dos barcos, deixando com 
Cris a tarefa de resolver sozinha como seria o resgate das meninas. 
      Estas ajudaram a puxar a canoa at a praia e tentaram entrar. Foi a que as risadas pararam e o queixume comeou. 
      - Eles nos fizeram cair na gua, dizia Jeanine em prantos. Eu me vingo! 
      - Estou com frio. Voc no trouxe toalha? perguntou Sara. 
      - Est l do outro lado. Quando chegarmos l, voc poder se enxugar, explicou Cris. 
      - Mas t to longe! Vamos morrer congeladas, fez Ruthie reclamando. 
      - No est to frio. Tente sentar-se no fundo da canoa, para no pegar vento, falou Cris. 
      - Mas tem gua no fundo, protestou Sara. 
      - No tem importncia. Vocs j esto molhadas mesmo. No vai fazer mal. 
      As meninas se ajeitaram na popa e cruzaram os braos em volta dos coletes inflados, procurando manter-se aquecidas. Cris estava na proa, tentando manejar a 
canoa sozinha pela lagoa. Sem ningum no remo de trs, parecia impossvel mover a canoa na direo certa. A embarcao girava pela gua, movida mais pelo vento e 
pelas ondas do que pelos golpes de remo. A coisa estava realmente ficando difcil. 
      Sua tripulao reclamava e dava palpites sobre o lado em que ela deveria estar remando, e dizendo que estava fazendo tudo errado. Cris agentou os comentrios 
por dez minutos; a estourou: 
      - Uma de vocs quer tentar fazer isso no meu lugar? No  nada fcil!
      - Eu ajudo, ofereceu-se Ruthie. 
      Levantou-se para sentar-se no meio e colocou um remo na gua do mesmo lado que o de Cris. Juntas, conseguiram afastar-se um pouco do lugar. Dez minutos mais 
tarde chegaram  praia. As meninas estavam quase secas. Os meninos haviam chegado fazia j uns bons quinze minutos. No havia mais nem sinal deles. 
      Jason veio ao encontro delas. Entrou na lagoa, ficando com gua at a cintura e ajudou-as a puxar a canoa para fora. Tirou cada uma das meninas da sua priso 
flutuante e ofereceu a mo a Cris para que ela pudesse pisar o cascalho. Ela se sentia uma conselheira incompetente, pois derrubara suas meninas na lagoa e perdera 
o contato com os meninos. Se ela mesma tivesse cado, talvez se sentisse um pouco melhor no momento. Pelo menos teria sido outra vtima, e no a pessoa responsvel 
pelo problema. 
Jason segurou sua mo e puxou-a para perto de si. Com voz baixa, disse: 
      - Estaria interessada numa aula grtis de canoagem? 
      O sorriso voltou ao rosto de Cris. 
      - Por qu? Acha que estou precisando? 
      - Depende de voc. Pensei que quisesse ter alguma vantagem sobre os acampados para a caada aos conselheiros de sexta-feira. 
      - Voc me convenceu. Diga a hora e estarei l. 
      - Hoje no jantar eu lhe falo, concluiu ele dando-lhe um leve aperto na mo antes de solt-la. 
      No jantar, Jason e Cris sentaram-se de costas um para o outro, cada um no lugar que se tinha tornado costumeiro. Durante a refeio, Jason inclinava-se para 
trs, no intuito de fazer comentrios, a boca prxima ao ouvido de Cris. Era difcil ouvir com a barulheira dos acampados, mas, na verdade, no tinha importncia. 
Bastava a ateno que ele lhe dava. 
      At o final do jantar ele nada dissera sobre a aula prometida. Talvez tivesse esquecido. Cris evitou cair no desnimo. Afinal de contas, ainda era quarta-feira. 
Tinham todo o dia seguinte para praticar, j que a corrida seria na sexta. 
      - Venha jogar bola conosco, insistiram as meninas, puxando-a pelo brao. Temos de andar depressa! S temos mais meia hora antes do culto da noite. 
      Cris deixou que as meninas a conduzissem ao campo de beisebol, onde alguns acampados j estavam jogando. Quando a viram chegar, insistiram para que ela atuasse 
como arremessadora. Ela batia bem na bola, mas no tinha muita confiana no seu arremesso. Tomou seu lugar no campo, preparou-se e em seguida mandou a bola em direo 
 base central. Uma das meninas do alojamento de Jessica bateu na bola e ela foi parar no centro do campo. As colegas de equipe deram vivas e a menina se curvou 
num gesto brincalho de agradecimento, quando chegou correndo  primeira base. 
Outra girada, e a menina seguinte rebateu logo a primeira bola arremessada por Cris. O mesmo aconteceu com a seguinte. Uma menina de uns 11 anos, tmida e magricela, 
aproximou-se da base e Cris jogou trs bolas com muita calma e lentido. A menina errou as trs. 
      - Mais uma arremessada, soou uma voz grave do lado do campo. 
      Era Jason. Ele ficou atrs da pequena rebatedora que estava desanimada, colocou os braos em torno dela e mostrou-lhe como deveria segurar o basto do jeito 
certo. 
      - 0K., Cris, faa seu melhor arremesso! pediu Jason, ainda com as mos sobre os braos da menina com o basto. 
      Cris fingiu cuspir nas mos e mandava sinais para o pegador. 
      - Vamos l, arremessadora! V com tudo! 
      Com um gesto dramtico, Cris fez o lanamento. Foi uma jogada ridcula, com a bola caindo a um metro e meio do marcador do lado esquerdo. Todo mundo riu, inclusive 
ela. 
      - Se essa foi a sua melhor, como ser a pior ento, hein? indagou Jason. 
      - Estava s testando voc. Queria ver se conseguia rebater qualquer coisa. Aqui vai uma boa. 
      Ela arremessou uma bola devagar, bem dada que, com a ajuda de Jason, a menina conseguiu rebater para longe, quase caindo no mato. Todos deram vivas e ela percorreu 
as bases com Jason do lado. As outras corredoras conseguiram chegar com vivas e urras. 
Um campista jogou a bola at a segunda base no momento em que Jason e a menina tocavam a terceira. Agora a luta seria ver se conseguiria ganhar. Jason pegou a menina 
no colo, carregando-a como se fosse uma bola, e correu at a base central. Conseguiram chegar alguns segundos antes da bola, e Jason colocou a menina firmemente 
sobre a base, como um explorador que planta uma bandeira e toma posse da terra para seu pas. 
      Uma pequena multido de acampados tinha se juntado, e todos deram vivas quando a menina seguinte chegou  base central. 
      - Tambm quero que o Jason me ajude, disse ela. 
      - No, voc consegue sozinha. Vamos l! Experimente! dizia o rapaz do seu lado, animando-a. 
      Com a primeira tacada, a menina pareceu errar de propsito. Talvez esperasse que sua falta de coordenao trouxesse Jason para junto dela. 
      - Que  isso? gritou ele. Voc sabe rebater melhor! 
      Ela posicionou o taco no ombro e virou-se para Cris com uma expresso quase de raiva. Cris teve vontade de rir. A menina levava o jogo mais a srio do que 
devia. Cris mandou uma bola fcil, baixa, e a menina bateu nela de modo a tocar o cho e voltar direto para Cris. Olhando-a pelo canto do olho, a correr para a primeira 
base, Cris esperou que ela estivesse perto dela para pegar a bola e atir-la  primeira base. A menina chegou primeiro. Pelo jeito dela, parecia bem satisfeita consigo 
mesma. 
       distncia, o sino do acampamento tocou: hora do culto vespertino. Todos reclamaram. As meninas de Cris se queixaram de que no tinham tido tempo de rebater 
a bola. 
      - Podemos terminar o jogo amanh? 
      - Claro. Que tal logo depois do almoo? falou Cris. 
      - Voc foi boa demais para elas, disse Sara, Parecia que estava tentando ajud-las a ganhar. 
      - Ela atiraria a bola do mesmo jeito para voc, se voc a fosse rebater, disse Jason em defesa de Cris, acompanhando-as atr ao salo principal.  isso que 
os conselheiros devem fazer: ser justos com todos. 
      A menina que Jason ajudara a correr as bases agora segurava no brao dele, parecendo permanentemente ligada ao rapaz. Sara agarrou o outro brao de Jason. 
Olhando para ele com seus olhos cor-de-gengibre, implorou: 
      - Amanh voc joga com a gente? Pooooor favoooor! 
      - Claro, replicou ele. 
      Jason conseguiu atrair a ateno de Cris e deu-lhe um imenso sorriso. 
      - Eu e Cris formamos uma dupla excelente, no acha? indagou. 
      O comentrio provocou uma rodada de "sim" e murmrios de aprovao das meninas. 
      - Por que vocs dois no se casam? perguntou Jocelyn. A poderiam fazer isso todo dia, pelo resto da vida. 
      - Isso mesmo! concordou Jeanine. Vocs podiam morar num alojamento na floresta e ns todas viramos visitar vocs. Vocs nos levariam a passear de canoa e 
jogar beisebol todos os dias. 
      Cris estava envergonhada demais para encarar o Jason, mas sentia em seu olhar uma expresso zombeteira. Felizmente, chegaram ao acampamento e entraram no salo 
de culto com o resto dos acampados. O louvor comeou e as meninas de Cris, cheias de energia, cantavam alto, cutucando umas s outras e inventando outros gestos 
aos que j conheciam. Jason atravessou o salo com seus meninos. Ele virou-se e olhou para Cris, fazendo-lhe sinal de "tudo bem?". Ela retribuiu-lhe o sorriso, esperando 
que suas meninas no tivessem notado. 
      Ento Cris notou o projetor de filmes no fundo. Lembrou-se de que o Deo Ferrill havia dito, na reunio de conselheiros, que exibiriam um filme que obrigaria 
as crianas a pensarem um pouco. No devocional da noite, os conselheiros deveriam aproveitar a mensagem do filme para ver se algum dos acampados no tinha certeza 
da salvao ou queria assumir um compromisso com Cristo. 
      Apagaram-se as luzes, e o filme comeou. Cris sentiu uma mo firme no seu ombro. Era Jason, que cochichou: 
      - Venha comigo. 
      Ela saiu sem que "suas meninas" notassem, e o seguiu. No momento que fecharam a porta do salo, ele tomou a mo de Cris, e disse: 
      - Hora da aula de canoagem. 
      - Agora?! 
      Ainda segurando sua mo, Jason puxou-a aps si e correu com ela em direo ao lago. 
      - Agora  a melhor hora, acabando o pr-do-sol. A gua est serena e tudo parece quieto. 
      - Mas voc tem certeza de que podemos? insistiu Cris. 
      Ela sentia que estavam saindo meio s escondidas, deixando as crianas sem superviso. Achava que entrariam numa fria por abandonarem seus acampados e sarem 
juntos sozinhos. 
      - Estaremos de volta antes que o filme acabe. No vai ter problema. Confie em mim. 
      Ele continuou segurando firme a mo dela enquanto caminhavam pela mata. Chegaram  casa de barcos quase sem flego. Quando entregou o colete salva-vidas e 
o remo a Cris ele tinha no olhar uma expresso de aventureiro. Ela ainda sentia que estavam fazendo algo proibido, e que seriam pegos. 
      - Tem certeza de que est tudo bem, Jason? 
      - Voc quer aprender a remar bem, no quer? Agora  sua oportunidade de ouro. Olhe s para o lago. No  lindo? 
      Teve de admitir que Jason tinha razo. A lagoa parecia o assoalho de um estdio de bal - liso e perfeito - com as luzes douradas do poente danando sobre 
ela. 
      - Entre, ordenou Jason, com a canoa posicionada para entrar na gua. 
      Cris equilibrou-se com cuidado, indo para o banco da frente, segurando-se a para manter a canoa em equilibrio. Jason colocou todo o seu peso no banco traseiro 
e usou o remo para dar o impulso inicial  embarcao. 
      De repente, tudo era silncio. Os nicos sons eram o da calma gua batendo nos lados da canoa e o coral noturno de sapos e grilos nas imediaes da praia. 
      - Jason, voc tem certeza de que podamos estar aqui? 
      - Calma, garota. J fiz isso muitas vezes, disse ele. 
      E a voz de Jason ficou mais suave quando ele acrescentou: 
      - No  lindo aqui? Adoro esse cenrio. Relaxe, Cris. Garanto que este ser o ponto alto de sua permanncia aqui no acampamento. 
      Cris apertava o remo no colo. Seus olhos vasculhavam a gua que escurecia  medida que remavam para o centro da lagoa. 
      Relaxar, ? 
      
      
      
      
      
      
      Piquenique ao Luar
      8
      
      Chegando ao meio da lagoa, Jason disse:
      - Agora, a primeira coisa que precisa aprender  segurar o remo. Notei hoje que voc estava segurando assim. 
      Na tnue luz do pr-do-sol, ele mostrou como as duas mos deveriam se prender na haste do remo. 
      - Tem de colocar uma mo em cima, assim, e a outra mais ou menos aqui. 
      Cris segurou o remo seguindo suas instrues. 
      - Muito bem. Sabia que voc aprende depressa. Quando estiver numa canoa sozinha, tem de remar no banco de trs para controlar o rumo. Hoje voc estava tentando 
dirigir no da frente. Veja s. 
      Instalado na popa, Jason mergulhou o remo na gua, do lado direito, impelindo a canoa para frente. Outro golpe de remo, do lado esquerdo, e a embarcao tomou 
novo impulso, avanando agora em linha reta. 
      - Agora tente. Vire-se para mim, e seu lado ser a parte traseira da canoa. 
      Cris levantou uma perna e tentou coloc-la do outro lado sem virar a canoa. Sentia-se terrivelmente desajeitada. Conseguiu colocar ambas as pernas na posio 
desejada e sentou de frente para o Jason. Estava escuro demais para ver o rosto dele, mas teve a impresso de que ele estava sorrindo.
      Ser que ele acha que sou um trambolho, uma desajeitada, ou o qu? No sei se ele est apenas sorrindo para mim ou rindo de mim. 
      - Voc usa a mo direita? 
      - Sim, por qu? 
      - Tenho uma teoria de que a gente tem mais fora remando no lado esquerdo, porque assim a mo direita est em cima, no remo, e  a mais forte. Ento, comece 
do lado esquerdo. Lembre-se de colocar a mo direita em cima. 
      Cris seguiu suas instrues. 
      - Muito bem. Sempre comece com um movimento forte para o outro lado e d outra remada forte. 
      Cris fez exatamente isso e Jason a elogiou. 
      - Veja como  diferente quando a gente rema a partir da popa. Voc tem muito mais controle, explicou ele. 
      - Est certo. Obrigada pela lio. 
      Jason comeou a olhar para a copa das rvores, no outro lado do lago. 
      - Ainda vai demorar uns dez minutos. Ainda bem que trouxe provises para ns. 
      - O que  que vai demorar uns dez minutos? 
      - Voc ver. Est com sede? 
      Jason pegou um pacote no centro da canoa, que Cris notara quando entrou, mas pensava ser apenas um cobertor. Desatou o pacote e exps uma variedade de "provises". 
      - O que  isso? 
      - Nosso piquenique ao luar, disse ele, colocando um vidro vermelho no banco central e acendendo a vela que se achava em seu interior. 
      Cris ficou um pouco surpresa, mas da a pouco reconheceu a vela do "luau" havaiano, como as que seus tios usavam na varanda da casa de praia. A vela brilhava 
atravs do vidro, mas estava protegida contra o vento. Ento Jason retirou outro vidro e encheu-o de gua da lagoa, colocando-o ao lado da vela. Tirou do pacote 
uma dzia de flores do campo, meio amassadas, e as colocou no vaso. Cris sorria, vendo-lhe a criatividade.
      - Mas que charme, Jason! 
      - Charme? J deram muitos nomes para isso, mas acho que "charme"  o melhor deles. 
      Cris entendeu que, sempre que atuava como conselheiro do acampamento, Jason levava garotas para fazerem um piquenique ao luar. Ser que essa noite era diferente 
para ele? Ela era uma garota especial? Ou simplesmente mais uma conselheira com quem ele poderia flertar durante a semana? Ela queria ser a predileta, a nica com 
quem ele tivesse feito isso. Queria que fosse tudo romntico, tudo lindo para ele como estava sendo para ela. 
      Jason entregou-lhe uma garrafa aberta de gua mineral e um guardanapo. 
      - Obrigada, meu senhor, disse ela, em tom de brincadeira. 
      - E agora, a melhor parte: biscoitos de creme de amendoim, guardados de segunda  noite. 
      Entregou a Cris um biscoito que ainda estava 70% inteiro.
      - Este  o maior. Eles ficam esmigalhando depois do segundo dia. 
      Cris ria-se. 
      - Isso  divertido! Obrigada por ter me trazido aqui, Jason, disse ela. 
      Mordeu o biscoito e escutou o som das guas, que batiam levemente no lado da canoa. 
      - Ah! Quase ia me esquecendo! 
      Jason remexeu as coisas e tirou um walkman. Colocou uma fita, aumentou o volume ao mximo e equilibrou-o no meio com os fones de ouvido apontados para Cris. 
Depois baixou de novo o volume para que fosse apenas suave e audvel. 
      - Um pouco de msica romntica, acrescentou ele. 
      Cris sentiu vontade de rir. Era tudo muito divertido. Uma brisa soprou, trazendo o cheiro fresco e forte da relva com uma vaga lembrana de leo de bronzear, 
decoco. 
      - Ento, principiou Jason recostando-se e pondo-se a comer um biscoito, conte-me seus sonhos. 
      - O que? 
      - O que voc deseja? Quais os seus sonhos para o futuro? 
      Cris foi apanhada de surpresa. Sempre que sonhava com o futuro, os sonhos incluam o Ted. No podia dizer isso ao Jason. No ali com a msica,  luz de vela 
e tudo o mais. 
      - No sei se realmente tenho sonhos ou desejos para o futuro. 
      - Claro que tem! Tem de ter. Todo mundo tem de sonhar. Quer saber dos meus? 
      - Claro. 
      - Quero ser piloto. Quero ter um avio. No esses grandes avies comerciais, nem jatos militares, mas um aviozinho. Ficaria contente at mesmo com um pulverizador 
de agricultura.  o meu desejo. 
      - E voc j aprendeu a voar? 
      - No, mas obtive informaes a respeito. Estou guardando dinheiro, porque no  barato. Talvez at setembro ou outubro eu possa comear as aulas. 
      -  um sonho bom, disse Cris, tomando gua. Garanto que voc ser um excelente piloto. 
      - Agora  sua vez. Qual  o seu sonho? 
      - Bem, eu s pensei numa coisa. Acho que nunca contei isso para ningum. 
      - Pode me contar. Os segredos partilhados comigo em piqueniques ao luar esto seguros. 
      Jason pegou outro biscoito e esperou a resposta. 
      - Eu gostaria de ir  Inglaterra, disse Cris. Na verdade,  Europa. Sempre quis visitar um castelo de verdade e andar numa gndola em Veneza.  o meu sonho, 
completou ela, sentindo coragem. 
      -  um sonho muito bom, disse ele, imitando o sotaque britnico. Voc tem um jeito de Mary Poppins. Tenho certeza de que seu sonho se realizar. 
      Naquele instante, ele viu algo acima da cabea de Cris. Agora era mais fcil ver sua expresso, e Cris notou seu rosto iluminado de prazer. 
      - Olhe a. L est ela! 
      Cris virou-se e viu o que animara tanto o Jason. A lua, parecendo uma bola de manteiga, grande e gorda, aparecera justo nesse momento por cima das rvores, 
refletindo sua luz dourada sobre a lagoa. 
      - Bem na hora! disse Jason, virando devagar a canoa para que Cris no precisasse olhar para trs. 
      - Como  linda! sussurrou Cris, olhando a lua que se erguia sobre a lagoa e brilhava sobre eles como uma lanterna. 
      Tudo ao redor deles tomou a cor de mbar e parecia mais caloroso. Ficaram em silncio, apreciando o espetculo da noite e ouvindo a msica abafada do walkman. 
Cris viu que Jason estava certo ao dizer que esse seria o ponto alto de sua semana. Assim mesmo, por mais romntico, maravilhoso e cheio de paz que tudo estivesse, 
a lembrana de Ted encheu a noite de suspiros e fantasia. 
      No h nada de mal em estar aqui com Jason, deliciando-me com este momento romntico. No muda nada entre mim e Ted. 
      Naquele instante Jason se inclinou para Cris, a mo estendida para o seu rosto. 
Ele vai me beijar? O que devo fazer? 
      A mo de Jason limpou sua face. 
      - Olhe a. Voc estava com umas migalhas no rosto. 
      - Ah, sim! 
      Cris levou a mo ao rosto e afastou o resto das migalhas que Jason no alcanara. Sua pele parecia quente e ela esperava que ele no lhe percebesse o rubor 
 luz da lua. 
      - Quando deveremos voltar para que no percebam nossa ausncia? perguntou, tentando parecer mais calma do que estava. 
      - J, j Tem certeza de que quer voltar? Este  o nico momento de paz e silncio que voc ter gozado durante toda a semana. 
      Cris tinha vontade de ficar. Queria flutuar sobre a lagoa silente durante horas, olhar a lua, e compartilhar seus sonhos secretos com Jason. Queria que a fantasia 
continuasse. Mas por dentro a luta crescia. Ela deveria estar ali, sozinha, com Jason? Entrariam numa enrascada por terem se ausentado da reunio? E se falasse alguma 
coisa ao Jason de que mais tarde pudesse arrepender-se? 
      - Acho que devemos voltar, falou Cris dando um suspiro. Isso aqui foi maravilhoso, Jason. A msica, as flores, o luar. Adorei. Adorei estar aqui com voc. 
      - Obrigado. Fico contente por voc ter gostado, disse ele apagando a vela. Eu a levo de volta. Mas lembre-se de que a escolha foi sua, no minha.
      Ele tirou o buqu de flores do vaso e entregou-o a Cris. 
      - Para se lembrar de mim. 
      Ela colocou as flores no bolso do seu casaco, e disse: 
      - Vou guard-las, Jason, e sei que no vou me esquecer de voc, nem desta noite. 
      Dava para ver seu sorriso ao luar e ela sentiu-se feliz e um pouco aliviada, porque as coisas s chegaram at a esse ponto, e no mais longe. 
      Enfiando o remo na gua, ela perguntou: 
      - Quer que eu reme at a praia? 
      - Boa idia. Lembre-se de comear pelo lado esquerdo. 
      Cris tentou lembrar-se de todas as dicas que Jason lhe dera e enfiou fundo o remo. Estava muito mais fcil do que a experincia da tarde. Da a pouco a proa 
da canoa raspava o cascalho. 
      - Excelente, disse Jason, saltando da canoa e puxando-a para a praia. Eu guardo o equipamento, se voc quiser voltar para o salo de cultos. Ou pode me esperar, 
se quiser. 
A idia de andar sozinha pelo mato escuro no a atraa. Ento resolveu ajudar Jason a guardar o equipamento. Ele colocou o pacote do "piquenique" num canto da casa 
dos barcos. Cris logo pensou se a sacola ficaria l at a semana seguinte, quando ele levaria outra conselheira para passear na lagoa. Novamente, ele tomou a mo 
dela e eles se apressaram rumo ao salo. Os acampados comeavam a sair, correndo na direo do refeitrio para o lanche da noite. 
      - Est vendo? falou Jason soltando a mo dela e juntando-se ao grupo que se dirigia ao refeitrio. Sem problemas. 
      Cris quase chegou a pensar que estivesse tudo bem, at a hora do devocional, quando ela deveria conversar sobre o filme com as meninas. Quando comearam a 
matraquear, Cris no tinha idia do que falavam. Tomando rapidamente outra direo, pediu que elas ficassem quietas e escutassem, que ela lhes contaria seu testemunho. 
      - Por que chamam de testemunho, "professora"? perguntou Amy. 
      - Bem, porque a gente est contando alguma coisa que aconteceu com a gente e falando que o que est dizendo  verdade, explicou Cris. 
      Ela contou s meninas que tinha sido criada num lar cristo. 
      - Como que uma casa pode ser crist? perguntou Sara. 
      As outras riram, e Cris acalmou-as, dizendo: 
      - Claro que a casa no pode ser crist. Quero dizer que meu pai e minha me so cristos, e eu cresci freqentando a igreja. 
      - Eu tambm, disse Ruthie, seguida de vrias das outras meninas. 
      - Mas depois entendi que no bastava eu saber sobre Deur. Tinha de convid-lo para entrar em minha vida. Fiz isso quando tinha quinze anos. Orei pedindo a 
Deus que perdoasse meus pecados e entrasse em minha vida. Ele entrou, e desde ento estou mudando aos poucos e tornando-me mais como Deus quer que eu seja. 
      - Como pode existir uma escola crist? perguntou Sara. As pessoas que freqentam a escola podem ser crists, mas a escola no. 
      As demais meninas contriburam com opinies sobre a diferena entre uma escola de cristos e uma escola crist. Cris compreendeu que nenhuma delas tinha ouvido 
seu testemunho e, mesmo que tivessem escutado, parecia que ele no tivera muita importncia para elas. 
      - Est bem, meninas. Chega. Vou apagar as luzes e todo mundo se enfia j em seu saco de dormir. 
      Ela apagou a luz e meteu-se na cama. 
       Agora vou orar. Se alguma de vocs quiser orar, poder faz-lo. Vamos ficar em silncio por algum tempo, dando oportunidade a quem quiser orar. Depois eu 
termino, est certo? Vamos orar! 
      Houve uns dois segundos de silncio e uma das meninas deu uma fungada bem alta, que resultou numa srie de risos abafados. Ento algum se esforou para produzir 
um arroto. Jocelyn cochichou: 
      - Pare de chutar a minha cama, Sara! 
      - Meninas, disse com firmeza. Estamos orando. 
      Silncio. Silncio absoluto. Nenhuma das meninas orou, e aps dois minutos de silncio, Cris orou em favor de cada uma delas, do jeito que faziam nas reunies 
dos conselheiros. Depois orou pelos outros acampados, pelos conselheiros, pela equipe do acampamento e pelo grupo que viria na semana seguinte. Sua orao durou 
uns cinco minutos, e quando terminou, nenhuma das meninas estava acordada. 
      Bem, pensou, esse  um bom jeito de conseguir que elas caiam no sono! 
      Cris tambm dormiu imediatamente e teve sonhos maravilhosos. Sonhou, por exemplo, que estava num barco a remo, singrando uma lagoa plcida, com cisnes nadando 
em derredor. Atrs dela havia um imenso castelo, como de livro de histrias. Ela segurava um guarda-sol rendado, que girava entre os dedos to calados de luvas 
brancas. Perto dela, no barco, estava um homem de smoking, que servia ch numa xcara de porcelana. Em dado momento, ele perguntou se ela queria um ou dois torres 
de acar. Ela olhou para ele e viu que era o Ted. 
      Ao acordar com o alarme, s seis da manh, sentiu-se repousada. Saltando da cama, correu ao banheiro para uma rpida chuveirada. Jessica j estava l e Cris 
contou-lhe sobre a nova ttica do culto devocional e de orar at que as meninas dormissem. 
      - O nico ponto negativo foi que elas no prestaram ateno no meu testemunho e nenhuma delas quis orar. Acho que nenhuma das minhas meninas est interessada 
nas coisas espirituais. 
      Jessica enrolou uma toalha no cabelo molhado e despejou adstringente num chumao de algodo, passando a fazer sua rotineira limpeza de pele. 
      - Acho que o prximo passo  voc passar algum tempo a ss com cada uma, para descobrir em que p esto. 
      - Mas como vou conseguir? J  quinta-feira. No tenho muito tempo. Alm do mais, o que  que digo? Algo assim: "Vamos passar alguns minutos conversando srio. 
Ento, diga-me se voc  ou no  salva e se quer ou no quer se converter"? 
      Jessica comeou a rir. 
      - Assim no, Cris! Simplesmente sente-se com cada uma, diga-lhe que voc se interessa por ela e pergunte se ela tem alguma coisa sobre a qual gostaria de conversar. 
No sabemos quem est pronta para entregar o corao ao Senhor e quem no est. Deus sabe. S precisamos dar-lhes a oportunidade de conversar e responder a alguma 
pergunta que quiserem fazer. 
      Cris penteava os cabelos molhados. 
      - Voc est certa. Vou dar um jeito de conversar com cada uma. Gostaria que voc soubesse que se no estivesse me dando todos esses conselhos, eu estaria completamente 
perdida! 
      - Tenho certeza de que voc se sairia muito bem, disse Jessica. Mas estou contente por estar ajudando-a nesta semana. Gostaria que me desse seu endereo para 
a gente manter contato depois do acampamento. 
      - Eu tambm. A minha amiga Katie no vai acreditar que eu disse isso, mas estou contente por ter vindo. Est sendo uma tima semana. 
      - Ainda no acabou! Ainda temos de sobreviver  caada aos conselheiros amanh. 
      A tal da caada foi a primeira coisa que discutiram na reunio da manh. 
      - Sugiro, disse o Deo Ferrill, que cada um de vocs d uma caminhada at o outro lado da lagoa hoje e arranje um lugar para se esconder. Isso ajudar a economizar 
muito tempo amanh, quando chegarem l. 
      Como Cris tinha prometido s garotas que jogaria beisebol com elas aps o almoo, no tinha certeza se teria tempo para procurar um esconderijo. Felizmente 
fazia muito calor naquela tarde, e aps trs tempos os dois times j queriam parar e procurar um esporte mais refrescante. No momento que uma sugeriu vlei de piscina, 
todas desapareceram, deixando Jason e Cris sozinhos para guardar o equipamento. 
      - Voc vem para a piscina? perguntou Jason. 
      - Na verdade, acho que seria melhor eu procurar um esconderijo do outro lado da lagoa. 
      - Boa idia. Vou com voc. Posso lhe mostrar alguns lugares que j utilizei.
      Deram a volta em torno da lagoa, em vez de a atravessarem de canoa. Onde a trilha ficava mais estreita, Jason ofereceu a mo a Cris. Ela sentia-se bem segurando 
a mo dele.
      - Aqui tem um lugar que eu utilizei dois anos atrs, disse Jason, parando e apontando para cima. 
      - Onde? 
      L em cima.  fcil de subir nesta rvore. Foi divertido, porque a meninada nem pensou em olhar para cima, mesmo quando eu lhes dei um banho de agulhas de 
pinheiro. 
      - No sou muito de subir em rvore. Tem alguma outra sugesto? 
      - Claro. Siga-me. 
      Ele a conduziu pela mata, apontando cinco esconderijos possveis. Ela achou o ltimo melhor e resolveu que seria o seu. Era o tronco oco de uma rvore atrs 
de outra bastante alta, perto da trilha. Os acampados teriam de deixar a trilha e dar a volta na rvore para encontr-la. Achou que seria bom trazer uma toalha para 
no ter de sentar-se na madeira mofada no interior da rvore. 
      Jason tomou novamente sua mo e comeou a conduzi-la de volta. Parou diante de uma rvore boa de subir, e disse: 
      - Acho que vou subir de novo este ano. Deu certo ano passado. 
      Ento passou a sugerir estratgias com a canoa. Cris estava gostando da sensao que experimentava naquele momento. Os pssaros cantavam no alto. O lago brilhava 
por entre as rvores, e ela estava numa caminhada de mos dadas com o conselheiro mais bonito do acampamento. Era como Cris imaginava que um acampamento seria. 
Nesse instante nada de sua vida anterior importava. Tinha mais dois dias no Acampamento Wildwood, e tencionava aproveitar bem cada minuto. 
      
      
      
      
      
      
      
      O que se V no Oco duma rvore
      9
      
      Naquela noite, ao jantar, Jocelyn no estava comendo. Cris perguntou se estava se sentindo bem. 
      - T com dor de barriga, reclamou ela. 
      Cris apalpou-lhe a testa. 
      - Voc parece febril. Vamos  enfermaria. 
      E virando-se para Jason, pediu: 
      - Pode ficar de olho nas minhas meninas? Esta aqui precisa ver a enfermeira. 
      Com o brao em volta de Jocelyn, Cris saiu com ela do refeitrio barulhento, e atravessou o ptio em direo ao pequeno prdio branco da enfermaria. Quando 
estavam a poucos metros de l, Jocelyn disse: 
      - Acho que vou vomitar... 
      - Consegue chegar at aqueles arbustos? indagou Cris, puxando-a para que andasse mais depressa. 
      Conseguiram chegar l a tempo de Jocelyn vomitar no mato. Cris virou o rosto e segurou o flego. Esta era uma parte das tarefas de conselheira que no planejara. 
Remexendo no bolso, pegou um leno de papel. Ainda prendendo a respirao, Cris estendeu-o  menina. Jocelyn gemeu e comeou a chorar enquanto limpava a boca, dizendo: 
      - Estou me sentindo muito mal! 
      - J estamos chegando, disse Cris, colocando o brao em sua volta, para ampar-la melhor, confortando a menina que, a essas alturas, estava em prantos. 
      Felizmente a enfermeira deve t-las ouvido ao chegarem, porque j foi abrindo a porta e ajudando Jocelyn a deitar-se em uma maca. 
      - Ela est com dor de estmago. Vomitou l entre os arbustos. 
      - Coitadinha! disse a enfermeira, colocando a mo sobre a testa da menina, O que voc comeu hoje? 
      - Ela nem tocou no jantar, disse Cris. 
      - E no horrio livre, comeu algum lanche? 
      Jocelyn fez que sim com a cabea e murmurou algo sobre chocolates, cheetos e batatas fritas. 
      A enfermeira colocou uma toalhinha mida na testa da menina, e disse baixinho para Cris: 
      - Est me parecendo um caso tpico de excesso de lanche. Vou dar alguma coisa para acalmar o estmago e daqui a pouco ela estar bem. 
      Cris tocou o brao de Jocelyn com carinho, e disse: 
      - Faa o que a enfermeira lhe disser que logo estar novinha em folha. Eu venho ver voc mais tarde, est bem? 
      Estava prestes a sair quando a enfermeira lhe disse: 
      - Me faa um favor. Encha de gua o balde que est ao lado da enfermaria e jogue onde ela vomitou. 
      Cris deu uma tremida de nojo ao jogar gua no lugar. Definitivamente, podia dispensar este aspecto da tarefa de conselheira. Para que ficasse bem limpo, encheu 
outro balde de gua, derramando-o sobre o mato, para que no restasse nenhum sinal do incidente. 
      Ainda bem que consegui tir-la do refeitrio antes de acontecer isso! 
      As portas do refeitrio se abriram e os selvagens do Acampamento Wildwood se espalharam pelo lugar como ratos de laboratrio, soltos de repente. 
      timo, o jantar acabou e eu no comi. Na verdade, no estou mais com fome. 
      Nesse dia Cris tencionara passar algum tempo, individualmente, com suas meninas, mas com o jogo de beisebol e a caminhada com Jason, a tarde voara. Jeanine 
foi a primeira das suas garotas que ela viu saindo do refeitrio. Aproximou-se dela, e perguntou: 
      - Quer fazer alguma coisa? 
      A garota fitou-a com expresso intrigada. 
      - O que, por exemplo? 
      - Sei l. Caminhar, sentar na beira da lagoa e conversar... 
      - Por qu? 
      - Bem, s para passarmos alguns minutos juntas. 
      Cris quebrava a cabea para imaginar uma abordagem melhor. 
      - Estamos juntas a semana toda, At dormimos no mesmo beliche. 
      - Eu sei, s que pensei, bem... Ah, deixe pra l. 
      - No, replicou a menina agarrando o brao de Cris como que sentindo que havia algo errado. Podemos fazer alguma coisa juntas, se voc quiser. 
      Agora Cris no sabia quem era a lder e quem a liderada. 
      - Por que no vamos procurar algum lugar para conversarmos simplesmente? Sei onde tem um banco perto daqui. 
      - Legal, disse Jeanine, animada. Se isso fizer com que voc se sinta melhor. 
      Cris conduziu Jeanine ao banco. Tencionava tomar a iniciativa da conversa e, enquanto caminhavam, disse: 
      - Quero que saiba que voc  maravilhosa. Eu a quero bem e gostaria de saber se tem alguma pergunta sobre Deus. 
      Jeanine fitou-a, e disse: 
      - No, nenhuma pergunta. 
      - Tudo bem. 
      Por um instante, Cris ficou indecisa, sem saber o que dizer. Assim mesmo, prosseguiu: 
      - Mas ento, acha que entre voc e Deus vai tudo bem? 
      - Sim, minha me e meu pai oraram comigo quando eu era pequena. Jesus mora no meu corao e sei que vou para o cu. Voc poderia fazer uma trana no meu cabelo, 
que nem aquela outra conselheira, a Jessica, faz no cabelo das meninas do quarto dela? 
      - Posso tentar. 
      Por que nenhuma dessas meninas quer falar sobre coisas espirituais? 
      - Legal. Tenho uma gominha aqui. 
      Tirou pelo menos meia dzia de gominhas do bolso. 
      - Pra que tudo isso? perguntou Cris, tentando alisar o cabelo embaraado de Jeanine com os dedos antes de puxar as partes para fazer uma trana de raiz. 
      - A Jessica disse que eu devia dar alguma coisa ao Nick em vez de tirar as coisas dele, sabe? Tentei dar a pulseira de couro, mas voc sabe o que aconteceu. 
Agora t lhe dando outra coisa:  um tiro de gominha bem no meio da nuca, quando no est olhando. Ele ainda no sabe que sou eu. 
      Cris achou bom que Jeanine no pudesse ver-lhe o rosto. No dava para reprimir o riso. 
      - Por que os meninos no comeam a gostar das meninas na mesma poca em que as meninas comeam a gostar deles? indagou Jeanine e ficou bem quieta, esperando 
a resposta. 
      - Nao sei. Talvez Deus esteja dando s garotas um ano ou dois a mais para elas melhorarem os modos. Assim, quando os meninos tiverem idade para se interessar 
por elas, sero meninas por quem valha a pena se interessar. 
      - Nunca pensei desse jeito, disse Jeanine, realmente convencida. Voc me ensina a melhorar meus modos? 
      - Claro, se voc quiser. Me d uma gominha. 
      Cris prendeu a ponta da trana. Ento, Jeanine virou-se para Cris. Com o cabelo fora do rosto, era uma menina bonita.
      - Primeiro, pare com os tiros de gominha. Acho que isso no ajuda nada, para conquistar o Nick. Segundo, procure comer de boca fechada e no conversar quando 
estiver de boca cheia. 
      - E o que mais? 
      - Bem, sentar direito sempre ajuda. 
      Imediatamente Jeanine endireitou o corpo e ergueu a cabea. 
      - Assim? 
      - Isso! Est muito bem. Outra coisa: os gritos. Existe lugar para se gritar, como na piscina ou na montanha-russa. Mas em geral uma jovem no precisa gritar 
muito apenas por gritar. 
      Jeanine acenou que sim, e perguntou: 
      - E o que mais? 
      - Isso a j  um bom comeo. Sempre procure dizer coisas boas sobre as pessoas e tratar todo mundo com considerao. 
      Jeanine deu um largo sorriso, ansiosa para ir e experimentar algumas de suas novas tcnicas com o Nick. Quando ela estava prestes a levantar-se, Cris tocou 
seu brao, e perguntou: 
      - Posso abenoar voc, Jeanine? 
      - Abenoar? Pra qu? 
      Meses antes, numa manh gelada na praia, Ted havia colocado a mo na testa de Cris, dando-lhe uma bno. Na poca ela no a queria e no a recebeu bem. Mas 
seu ato tinha permanecido em sua lembrana todo esse tempo. Por alguma razo, Cris teve o impulso de abenoar essa menininha em que despontava uma jovem. 
      - Simplesmente feche os olhos, disse. 
      Em seguida, colocou a mo na testa de Jeanine e continuou: 
      - O Senhor lhe abene e lhe guarde. O Senhor faa resplandecer o seu rosto sobre voc e lhe d a paz. E que voc sempre ame a Jesus em primeiro lugar, acima 
de tudo o mais. 
      Jeanine abriu os olhos brilhantes, e sorriu. 
      - Legal! E o que quer dizer "amar a Jesus acima de tudo o mais"? 
      - Quer dizer que em toda situao que voc enfrentar ao crescer, que voc ame muito a Jesus e ame a ele mais do que a qualquer outra coisa. 
      - Obrigada, Cris, replicou Jeanine dando um salto e impulsivamente beijando o rosto da conselheira. Voc  a melhor conselheira do mundo! concluiu e saiu correndo. 
      Cris deteve-se por um instante, pensando no conselho que acabara de dar. Queria poder dizer  garota que tinha um amor assim por Jesus. Ela o amava, mas queria 
am-lo mais. 
      Certa vez Ted lhe dissera que isso era bom porque significava que ela tinha "fome e sede de justia". 
      Embora a conversa com Jeanine no tivesse tomado o curso que ela previra, estava contente. Tinha dado a Jeanine o que ela precisava, e talvez a bno ajudasse 
a menina a sentir-se amada. 
      Sentou-se com Amy, Sara e Ruthie no culto da noite. Sentia-se satisfeita porque Amy e Sara tinham includo Ruthie no seu grupinho, e elogiou-as no quarto aquela 
noite, enquanto se aprontavam para dormir. As duas meninas pareciam contentes. 
      Para o culto devocional, Cris leu seu salmo predileto, o 139. Em seguida conversou alguns minutos sobre como Deus amava a cada uma e queria que cada uma entregasse 
seu corao a ele. Sentiu que a "mensagem" fora boa, e esperou que houvesse muitos comentrios depois - quem sabe uma ou duas converses. Falou a frase final e esperou 
a reao das meninas. 
      Todas, a no ser Sara, tinham cado no sono. 
      Cris tentou esconder sua decepo ao perguntar a Sara: 
      - Voc tem alguma pergunta? 
      - Sim. O Jason j beijou voc? 
      - No. Claro que no! replicou Cris, zangada. 
      - Por que no? Voc gosta dele e ele gosta de voc. 
      - Sara, isso no  razo suficiente para se beijar um rapaz. Quando a gente fica distribuindo beijos, a gente est entregando  outra pessoa um pedacinho do 
corao que no pode nunca mais pegar de volta. Temos de tomar cuidado para no distribuir demais, ou cedo demais, ou para a pessoa a quem no devemos beijar. 
      - Mas voc j foi beijada, no foi? Como foi? Voc fechou os olhos? 
      - Sara, a gente conversa sobre isso outra hora. Acho que ns duas precisamos dormir est bem? 
      Cris cobriu a cabea com o saco de dormir e ouviu uma resposta abafada de Sara, em que dizia que ningum queria conversar com elas sobre isso. E prometendo 
a si mesma que no dia seguinte conversaria com Sara a respeito de beijos, dormiu. 
      Ficou a ter um sonho repetido, confuso, em que o Jason tentava beij-la e ela no sabia o que fazer. 
      Sexta-feira amanheceu nublado e frio. Foi o primeiro dia em que Cris vestiu jeans, ao invs de short. Abriu mo do banho de chuveiro frio e puxou o cabelo 
para trs num rabo-de-cavalo, ao invs de lav-lo. Tomara um jeito no pescoo. Tinha a impresso de que passara seis meses no acampamento e no seis dias. 
      De manh, no caf, todos pareciam irritados tambm, talvez porque fosse o ltimo dia inteiro de acampamento, ou porque estivesse fazendo frio e chovendo. Fosse 
o que fosse, o ambiente ficou sombrio no acampamento a manh inteira. No almoo, duas de suas meninas brigaram para comer a ltima metade de sanduche de queijo 
quente, at que uma caiu para trs na cadeira. Se Cris no tivesse corrido para acudi-las, a briga teria sido pior. 
      - Aqui, disse Jessica, oferecendo para Cris um prato de sanduches. As minhas meninas no esto com fome. 
      Jocelyn agarrou o primeiro sanduche. Desde que se recuperara, cedo de manh, vinha comendo tudo que pintava. 
      E em meio ao alarido da crianada Jessica confidenciou a Cris: 
      - No gosto quando eles ficam assim logo antes da caada aos conselheiros. Parece que querem ver sangue!
      - Nosso sangue, suponho. 
      Jessica concordou e voltou para sua mesa, onde as garotas choramingavam, perguntando quando poderiam sair para ir  lanchonete comprar chocolates. 
      No instante em que deixaram o refeitrio, o sol saiu por entre as nuvens, parecendo que resolvera passar a tarde com elas. Da a instantes, Cris sentia calor 
dentro de seu jeans e sua malha, e resolveu trocar de roupa, vestindo short antes da caada aos conselheiros. Queria pegar tambm uma toalha para sentar-se dentro 
de sua rvore. 
      A cabana estava uma baguna geral. As meninas no tinham feito nada no horrio de limpeza e, como Cris estivera na reunio dos conselheiros quela hora, faltou 
l a presena dela para motiv-las. Elas perderam pontos, mas no pareciam se importar. 
      Correu at a lagoa. Seis canoas estavam enfileiradas na praia com uma bandeira colorida em cada uma. Cris foi designada para a canoa de bandeira alaranjada 
e amarrou uma faixa de tecido da mesma cor  sua cintura. Teria de entreg-la ao primeiro acampado que a encontrasse. 
      O Deo Ferrill passou o resto das instrues, e Cris montou seu "cavalo", sentindo-se bastante empolgada. Remo na mo, esperou o sinal. Os rapazes empurrariam 
a canoa das moas para a gua, e depois as deles mesmos. 
      - Ateno! Concentrao! Preparar... O apito do deo soou e Cris sentiu Jason empurrar sua canoa na lagoa com a fora de um caminho. 
      - V em frente! gritou ele. 
      Cris mergulhou o remo na gua, do lado esquerdo, do jeito que Jason ensinara. Teve um bom comeo, devido ao empurro dado por ele. Em pouco tempo estava vrios 
metros  frente das outras moas. A cada remada, ia sentindo alongarem-se seus bceps. Estava dando tudo que podia. 
      Contente por ter vestido um jeans cortado e a camiseta do Acampamento Wildwood, sentia o sol queimar-lhe as pernas. O reflexo da gua aumentava ainda mais 
a intensidade do sol. 
      Cris ouvia os gritos da meninada l atrs, na praia. Eles tinham de esperar at que a primeira canoa atingisse a praia do outro lado. A podiam correr em volta 
do lago e sair  procura dos conselheiros. 
      Jessica tinha razo. Pelos gritos que soltavam, eles pareciam mesmo  procura de sangue. Cris chegara ao meio da lagoa, e logo os trs rapazes a ultrapassaram, 
remando lado a lado. Ento Jessica a ultrapassou e gritou: 
      - Continue firme, Cris! Estamos quase chegando. 
      Cris remava mais forte, mantendo a canoa em linha reta e visando a um lugar aberto e espaoso na praia. Jason chegou primeiro, depois Mike, Jessica e Bob. 
Chegando logo atrs deles, Cris ouviu o agradvel rudo da embarcao tocando o leito de cascalho. Saltou da canoa, puxou-a at a praia e correu com o tnis encharcado 
at seu esconderijo no oco da rvore. Encontrou-a sem problema, mas percebeu que tinha esquecido a toalha dentro da canoa. Pelo rudo da meninada, correndo endoidecida 
em volta da lagoa, sabia que no havia tempo para voltar e busc-la. 
      Com o tnis enlameado, tentou raspar um pouco da sujeira do fundo de seu esconderijo. Parecia levar mais barro para dentro do que tirar madeira mofada. A barulhada 
dos baixinhos ia crescendo,  medida que se aproximavam. 
      Desistiu da limpeza e se enfiou no esconderijo que era de formato triangular. Juntando as pernas compridas perto do peito, enrolou os braos em volta delas 
e tentou encolher-se o mximo que pde. Ento procurou controlar o flego e respirar mais devagar. 
      Na verdade o oco da rvore era interessante. A poucos centmetros de seu rosto, a madeira parecia enrugada em vrias camadas em volta da abertura. O cheiro 
lembrava um pouco a mofo, mas parecia mais de terra mida, e no era de todo desagradvel. 
      Quando criana, Cris sempre gostava de histrias de criaturas da floresta que viviam nas rvores. Imaginou um dos anezinhos das histrias todo satisfeito 
por morar ali no seu esconderijo. 
      Logo ouviu os passos de um acampado que passava no trilho logo atrs da rvore onde Cris estava. Ela prendeu o flego, mas temia que seu corao, que batia 
loucamente, revelasse que ela se achava ali, Vrios outros meninos passaram por ela correndo e gritando, e, na verdade, Cris ficou assustada. No porque a pudessem 
encontrar - isso fazia parte do jogo. Mas o que aconteceria se estivessem to alucinados, que lhes ocorresse a idia de amarr-la e deix-la por l? 
      Mexeu-se um pouco, tentando acomodar-se melhor. Embaixo, havia uma ponta meio incmoda e ela sentia algo subindo e descendo as pernas, um formigamento provavelmente 
por ter ficado na mesma posio muito tempo. Ajustando os olhos  escurido de sua caverna, Cris percebeu que a casca de rvore  frente do seu rosto parecia se 
mexer. Olhou mais de perto e viu uma fileira de formigas vermelhas marchando pela entrada, a poucos centmetros de seu rosto. 
      Com grande autocontrole, evitou gritar, e no se mexeu. Outro bando de acampados passou trovejando pela trilha. Ela ficou quieta. Ento, sentiu aquele formigamento 
das pernas subir os braos e as mos. Naquele instante, percebeu que estava coberta de formigas. 
      - Aaaaiaiai! gritou, saindo de dentro do toco e pulando pelo mato, batendo os braos e pernas num esforo intil de livrar-se das formigas. 
      Duas meninas do quarto de Jessica encontram-na no meio da dana furiosa e se aproximaram. 
      - Se voc estiver bem, pode nos dar a faixa alaranjada?
      - Venham pegar, disse, ainda tremendo e sacudindo os ps. 
      Sacudiu dezenas de formigas vermelhas e pisou nelas. Mas ainda havia mais. 
Uma das meninas se aproximou timidamente e puxou a ponta do pano alaranjado. Ao pux-lo da cintura de Cris, mais uma dzia de formigas saram e desceram pelo pano, 
passando para a mo da menina. 
      Agora ela tambm gritava e se agitava toda na mesma "dana das formigas" de Cris. 
      - O que vocs duas esto fazendo? perguntou a outra menina. Vou levar isso para o outro lado! 
      Ela puxou o pano, sacudiu-o e saiu correndo. 
      - Voc tem de entrar na sua canoa e chegar antes de ns ao outro lado, disse a menina para Cris. 
      - No posso. Ainda estou cheia de formigas! 
      - Talvez se voc correr at a canoa elas caem, e, se ainda estiver sobrando formigas, voc senta em cima, amassa e mata todas. 
      Cris estava quase em prantos. 
      - Ardem! Minhas pernas parecem estar pegando fogo! 
      - Ento pule na gua, sugeriu a menina. Olha, elas me morderam tambm. 
      Ela estendeu a mo, mostrando uma dzia de manchas vermelhas. 
      - Que horror! gritou Cris. 
      Por falta de soluo melhor, ela fez o que a menina sugerira, e saiu correndo em direo  canoa, batendo nas pernas. Ento, como a gua fresca da lagoa parecia 
a nica coisa para parar o ardume, pulou nela e saiu encharcada. 
      - Cris! gritou Jason empurrando sua canoa para junto da de Cris. O que voc est fazendo? Entre na canoa! Vamos! Eu dou um empurro. Podemos remar juntos. 
      Apesar do sofrimento, Cris entrou na canoa e deixou que Jason a empurrasse, sabendo que no tinha tempo de explicar. Com braos trmulos, seguiu as instrues 
que ele passava aos gritos: 
      - Reme  esquerda. Reme  direita. Mais depressa! 
      - No consigo acompanhar voc! V sozinho, Jason. 
      Ele foi  sua frente, dando sinal de que estava tudo bem, e zarpou como uma flecha certeira. Chegou  praia e plantou sua bandeira antes do corredor chegar. 
Como ele era o primeiro conselheiro a voltar e a maioria dos acampados ainda estava do outro lado, parecia uma vitria vazia, com to pouca gente a dar-lhe vivas. 
      Cris remava devagar, mas firme, tentando com todas as foras ignorar o ardume crescente em suas pernas e braos. Ainda estava longe da praia quando os braos 
desistiram. 
      - Venha, Cris! Voc consegue, gritou Jason. Esquerda... direita. 
      Ela tentou, mas no adiantou. O peito arfava e a cabea latejava. A corrente levou-a alguns metros para mais perto da praia, enquanto tentava recuperar o flego. 
      - Vamos l, Cris! gritou Jason de novo. Sua corredora est quase chegando! S mais umas remadas! 
      Cris deu mais trs remadas de cada lado da canoa e parecia recuar ao invs de avanar. Olhou para a praia, onde Jason gesticulava, dando-lhe instrues para 
que se empenhasse com todas as suas foras. 
      Naquele instante a menina com a faixa alaranjada de Cris apontou na sada do mato e chegou ao cascalho, onde colocou a faixa no lugar em que Cris deveria fincar 
a bandeira. Agora a contagem era: conselheiros, um; acampados, um. Abaixando a cabea, Cris percebeu que estava passando mal. Viu que Jason nadava at sua canoa. 
Ele agarrou a corda e puxou-a pelo espao de mais ou menos sete metros que ainda faltavam para ela chegar  praia. 
      - Desculpe, disse ela. 
      - Cris, que foi que aconteceu? Voc est cheia de manchas vermelhas! 
      - Formigas, suspirou ela sentindo-se exausta. 
      Nesse momento, seu tnis molhado deslizou no cascalho. Jason amparou-a a tempo de impedir que ela batesse com o rosto no cho. 
      - Vou lev-la  enfermaria. Ponha o brao no meu ombro. Eu a ajudo a caminhar at l. 
      - Voc machucou? perguntou o Deo Ferrill ao ver a pele de Cris cheia de pequenas manchas. 
      - Vou lev-la  enfermeira, disse Jason. Tora pelos outros conselheiros por mim, est bem? 
      Mancando e amparando-se em Jason, Cris sentia-se ridcula por ter sido derrotada por umas idiotas dumas formigas. Nada disse at chegar ao acampamento. Jason 
falou o tempo todo sobre outros acidentes que vira no acampamento ao longo dos anos, tudo desde clavculas quebradas at lbios cortados. Nada disso fazia com que 
ela se sentisse melhor. 
      - Formigas de fogo, disse Jason  enfermeira, quando ela abriu a porta. 
      A enfermeira deu uma olhada no brao de Cris, e exclamou: 
      - Minha nossa, isso no est nada bom! 
      - Espere ento at ver isso aqui, disse Cris, expondo a parte de trs das pernas. 
      - Que horror! O que foi que voc fez? Sentou-se no centro de convenes das formigas? 
      - Acho que sim. 
      Cris esforou-se para sorrir, mas no estava conseguindo. 
      - Volto para v-la depois, disse Jason, deixando Cris nas mos da enfermeira. 
      - Vamos entrar nessa minha banheira aqui e providenciar para que todas essas criaturinhas saiam de voc. Espero que voc no tenha nenhum plano especial para 
hoje, porque acho que vai ficar de molho por algum tempo. 
      Cris entrou na banheira com gua morna, esperando ter uma sensao de alvio. Mas em vez disso, a gua deu a impresso de que mil agulhas tinham penetrado 
sua pele. Ela ps-se a se coar como louca. 
      - No coce! De jeito nenhum! gritou a enfermeira pela porta fechada. Coloquei um remdio na gua para eliminar o veneno. Se voc coar, vai piorar. 
      - Espero que saiba que esta  a pior tortura que uma pessoa poderia sofrer! respondeu Cris. 
      - Eu sei. Sinto muito. Mas vai melhorar. Confie em mim. 
      Naquele momento de desconforto, Cris sabia que no havia alternativa. 
      
      
      
      
      
      
      
      A Promessa de Sara
      10
      
      Cris ficou deitada de bruos na enfermaria enquanto a enfermeira passava uma loo fria e gosmenta em suas pernas. Sua vontade era chorar. Esta certamente 
era uma das piores experincias de sua vida. 
      Cobrindo-a com um lenol, a enfermeira instruiu: 
      - No se mexa. Fique deitada assim e tente descansar. 
      Gozado. Nunca tive tanta vontade de deitar de lado ou de costas, at agora, quando ela disse que eu s posso ficar de bruos. 
      Cris se mexeu e cerrou os dentes. Como descansar? A loo ardia quase tanto quanto as picadas de formiga. 
      - E como vai a nossa paciente? indagou a voz do Deo Ferrill da porta da frente. 
      - Tentando descansar. Ela foi atacada gravemente, disse a enfermeira. O senhor pode entrar e v-Ia se quiser. 
      O deo teve de dar a volta pela frente da maca de Cris e se apoiar sobre um joelho para olh-la de frente. 
      - Voc est bem agora? 
      Seu tom de voz era to terno, que Cris no conseguiu segurar as lgrimas. 
      - Estou tima, disse, mas as lgrimas falavam outra coisa. 
      Piscou, tentando parar de chorar. Ento se deu conta de que no podia usar as mos para limpar as lgrimas, porque a loo entraria nos olhos. 
      - Aqui, disse o deo, percebendo o dilema e pegando um leno de papel e limpando-lhe as lgrimas. Mais um ou dois dias e voc estar boa. 
      - Quem ganhou? 
      - Este ano foram os acampados. Eles esto bastante animados com isso. 
      - Foi por minha causa, no foi? 
      - No, no pense assim. Voc se saiu muito bem. Deu tudo de si. Estou satisfeito com voc. 
      Cris colocou as mos, bem manchadas de cor-de-rosa, sob o queixo no travesseiro. 
      - Pelo menos hoje no preciso servir as mesas. 
      O deo sorriu com sua piada, e retrucou: 
      - Ento foi por esse motivo que voc se sentou no maior formigueiro do mundo 
      - Deve haver mtodos mais simples, disse Cris, sentindo-se um pouco melhor. 
      - Na verdade voc tem se esforado muito, servindo as suas acampadas a semana inteira, e acho que tem feito um trabalho excelente. Gostaria de t-la como conselheira 
em outras oportunidades. 
      - Sinto que, em se tratando da rea espiritual, no consegui nada com as meninas. Tentei falar com elas sobre o relacionamento com Deus, e at me sentei com 
algumas para falar sobre isso. Mas elas ou diziam que j eram crentes, ou no queriam entregar o corao ao Senhor, ou simplesmente no entendiam. 
      O rosto do deo assumiu uma expresso de compreenso.
      - Cris, voc fez a sua parte. Voc lhes ensinou como podem receber a vida eterna. A maneira como vo entender isso  responsabilidade de Deus. E como vo aceitar 
 responsabilidade delas, no sua. 
      - Mas nenhuma teve uma reao positiva. Nem um pouquinho. 
      - Voc no sabe o que acontece no corao delas. Plantamos muitas sementes nessas crianas durante a semana. Algumas talvez brotem daqui a uma semana, algumas 
daqui a dez anos. Isso  responsabilidade de Deus. 
      - Eu queria fazer mais alguma coisa, falou Cris, dando um suspiro. 
      - Voc pode. Pode orar. Sempre pode orar. Na verdade, parece-me que voc se encontra numa posio muito propcia para orar por ns durante o resto da noite. 
      Cris queria enxergar seu problema pelo prisma espiritual como fazia o Deo Ferrill. Depois que ele foi embora ela pensou que ele talvez tivesse razo. No 
tinha mais nada que ela pudesse fazer aquela noite. No podia servir as mesas, nem ensaiar com os outros conselheiros para a pea que apresentariam na noite do teatro. 
No podia nem ter o ltimo culto devocional com as "suas" meninas. A secretria do acampamento ia ficar no alojamento da Cris aquela noite, para que ela continuasse 
na enfermaria. A nica coisa que ela podia fazer era orar. 
      Mexendo suas pernas que ainda ardiam, Cris tentava encontrar uma posio confortvel para a cabea. Comeou orando pelo Jason e os outros conselheiros. Orou 
pelas meninas, todas as outras acampadas, e depois os meninos, todos. Orou pela equipe da cozinha, do escritrio, lderes e motoristas dos nibus. No deixou ningum 
de fora, exceto, talvez, a si mesma. 
      No tinha certeza sobre o que iria pedir para si mesma. Para sarar logo? Para passar o ardume? O extermnio de todas as formigas vermelhas sobre o planeta 
Terra? Ouviu uma voz falando com a enfermeira: 
      - Ela pode receber visita? 
      Era o Jason. 
      - Claro, pode entrar. Ela no pode se mexer. Leve este banquinho e fique sentado perto da cabeceira da maca. 
      Cris tentou virar o pescoo sem mexer o resto do corpo. Viu a Jessica segurando um copo de plstico com flores silvestres e Jason seguindo-a com o banquinho 
da enfermeira na mo. 
      - Ol! saudou-os. 
      Tentou parecer animada, mas estava plenamente cnscia de como devia parecer ridcula, toda pintada de vermelho e rosa. 
      - Coitada de voc! disse Jessica, sentando-se de pernas cruzadas no cho e levantando o copo de flores. Onde ser que eu coloco estas flores para voc poder 
v-las? 
      - A mesmo no cho est timo. So lindas. 
      Naquele instante, um coral de vozes de meninos veio de baixo da janela entreaberta: 
      - Marchando vo as formigas, ol! Ol! Cobrindo a padaria da Cris, ol! Ol! 
      - Ei! gritou Jason, escancarando ajanela. Vocs vo ver s! Vo se ver comigo. Vou anotar o nome de todos! 
      Os meninos imediatamente se dispersaram. Jessica apertou os lbios para no cair na risada. Cris quebrou o silncio com um riso incontrolado. 
      - At que foi bastante criativo da parte deles! falou. 
      Jason e Jessica riram-se com ela. 
      - Est se sentindo um pouco melhor? indagou Jessica. 
      - Um pouquinho. Sinto muito no poder ajudar a servir as mesas. E sinto mais ainda por ter feito a gente perder a corrida. 
      - Nem pense nisso, disse Jason. Sinto muito por ter indicado aquele esconderijo. Juro que no havia formigas dois anos atrs, quando me escondi ali. 
      - No  sua culpa, Jason. Eu devia ter olhado antes de entrar l, e devia pelo menos ter ido de jeans. Ia levar uma toalha, mas deixei na canoa. Sinto mal 
por ter decepcionado vocs com o jantar, a pea dos conselheiros, e tudo o mais. 
      - Deu para refazermos a pea. Vai ficar tima. O mais importante agora  que voc fique boa, Cris. 
      - Vou tentar. 
      - Ns temos de nos aprontar para o jantar, disse Jessica. Mais tarde a gente aparece de novo, est bem? 
      - Ah! Jessica, se voc tiver tempo, poderia fazer uma trana no cabelo da Jeanine? Eu prometi fazer para o banquete de hoje. 
      - Claro. Mais alguma coisa que voc quer que eu veja? Acho que a secretria do acampamento j est no seu alojamento. 
      - No. S diga a todas que mandei lembranas e as verei amanh cedo. 
      Jessica arrumou o copo de flores no cho para que Cris pudesse v-las melhor. 
      - Acho as roxas as mais bonitas, comentou a moa. 
      Em seguida, beijando a ponta do dedo, colocou o "beijo" na ponta,do nariz de Cris, que sorriu e disse: 
      - E praticamente o nico lugar que no foi picado! 
      Jessica e Jason saram. Cris sentiu-se terrivelmente s. 
      - Vou jantar, disse a enfermeira uns quinze minutos depois. Eu lhe trago alguma coisa. Est com frio demais? Calor demais? 
      - Estou bem. Um pouco dura. No posso virar nem de lado? 
      - Seria melhor se voc pudesse esperar. A maioria das picadas  na parte de trs das pernas, e elas precisam ficar expostas ao ar. 
      - Est certo, suspirou Cris. Tem certeza de que voc no achou esse tratamento num livro medieval de torturas, sob o ttulo Como Enlouquecer Uma Pessoa? 
      - Ainda bem que no perdeu o senso de humor, comentou a outra ao sair. 
      , eu e meu senso de humor vamos nos divertir bastante esta noite. 
      Cris tentou orar novamente, passando pela mesma seqncia da ltima vez. Perto do final, l pelo motorista do nibus, ela cochilou e s acordou quando ouviu 
a porta se abrir. 
Deve ser a enfermeira com o jantar. Fome no  bem o que sinto. Mas podia beber alguma coisa. 
      Ouviu uma msica suave vindo de trs; a virou a cabea e viu Jason, trajando uma camisa branca, engomada, e gravata borboleta preta. O rapaz aproximou-se. 
Tinha um pano branco no brao, e nas duas mos equilibrava uma bandeja decorada com sua vela de luau, o walkman, uma lata de 7-Up com um canudinho, e um prato de 
frango, pur de batata e vagem. 
      - O jantar est servido, disse no seu melhor sotaque de mordomo ingls. 
      Cris deveria estar encantada e sentir-se honrada com a ateno do rapaz. Em vez disso, sentia-se totalmente incapaz, deitada com o rosto pintado de palhao, 
virado para baixo, e sem jeito de cortar a carne do prprio prato. 
      - No precisava fazer isso. 
      - Claro que precisava. Sabe as regras do acampamento. Se um conselheiro faz com que uma conselheira acabe na enfermaria, ele tem que servir o jantar para a 
invlida. 
      - No sou exatamente uma invlida. 
      - Ora, vamos!  s brincadeira. 
      Jason sentou-se  beira da banqueta, equilibrando a bandeja no colo e cortando o frango em pedacinhos. Parecia contente em continuar, da sua parte, a brincadeira. 
      Foi quando Cris percebeu que tudo com Jason naquela semana tinha sido mesmo apenas um faz-de-conta. O piquenique ao luar, a conversa sobre os sonhos, todos 
os sorrisos no campo de arco e flecha ou  beira da piscina. Estavam fazendo de conta que eram namorados durante o acampamento. Depois ela iria embora e Jason comearia 
a brincadeira com outra garota, na semana seguinte.
      -  isso que a vida  para voc? perguntou Cris. Uma grande brincadeira de faz-de-conta? 
      - O que voc quer dizer? 
      Jason se aproximou mais da maca, utilizando os joelhos como mesa, para que ela pudesse comer. Entregou-lhe o garfo e sorriu. 
      - Quer dizer que no sei nada a seu respeito e no entanto a semana inteira voc me tratou como se eu fosse sua namorada. 
      Jason pareceu surpreso. 
      - Por qu? Por ter lhe ensinado a atirar flechas e mostrado a lua da canoa? 
      - No o estou acusando de nada errado, disse Cris, percebendo que podia estar sendo injusta com um rapaz to gentil a ponto de servir-lhe o jantar. Eu tambm 
tenho brincado. Gostei do relacionamento com voc, de lhe dar as mos, do piquenique ao luar, tudo o mais. S que amanh tudo vai acabar e parecer que foi apenas 
um sonho. 
      -  assim mesmo, concordou Jason. Melhor comer o pur, que est esfriando. 
      Cris comeu uma garfada de batata e arrependeu-se de ter dito as coisas daquele jeito. 
      - Sonhar no  errado, ? disse ele em tom cauteloso. Se os dois sabem que esto jogando o mesmo jogo, no h nada demais e ningum se machuca, certo? 
      Cris achou que de alguma forma no parecia certo. No sabia como poderia diz-lo de modo que Jason entendesse. Deu uma mordida no frango, e disse: 
      - Est uma delcia. Obrigada por ter trazido para mim. Acho que estou com mais fome do que pensava.
      - s ordens. E se voc estiver chateada com alguma cosa que eu disse ou fiz esta semana, me desculpe. Eu no queria mago-la. S queria aproveitar estes dias 
com voc. 
      Depois que Jason foi embora, Cris permaneceu deitada sozinha no quarto, pensando no que ele dissera. Por que aquilo deveria perturb-la? Ela tinha levado a 
srio o romance de acampamento. Foi ela quem o quis. Por que o corao doa agora? 
      Deve ser porque vou embora amanh. E todo esse sonho vai acabar. O que vai sobrar do relacionamento com Jason? Ele no disse que queria me ver de novo, nem 
que escreveria ou telefonaria. Me tira da cabea dele e coloca outra garota, e aposto que vai fazer tudo igual com ela, logo na semana que vem. Com certeza. 
      Cris concluiu que o que houvera entre ela e Jason fora apenas um sonho. Comeou na sua cabea e ela convencera o corao de que era de verdade. No dia seguinte 
sumiria, evaporando-se como a neblina da manh. E j sabia que no seria sua cabea que se entristeceria, mas seu corao. Esse relacionamento de sonho a deixaria 
querendo mais. 
      Havia bastante tempo para refletir sobre tudo isso deitada ali, sobre o estmago cheio, ouvindo os sons da reunio da noite entrando janela adentro. Pelas 
risadas dos acampados, a pea dos conselheiros devia estar engraadssima. Os cnticos pareciam animados. Muito melhor do que quando ela estava no meio das "suas" 
meninas e ouvia as vozes delas, cantando o mais alto possvel. De onde estava agora, a msica distante parecia doce. Cantarolou junto os corinhos que conseguia reconhecer 
e percebeu de repente que cada coro que tinham aprendido nessa semana era um versculo bblico musicado. 
      Que tima idia! Sem saber, a meninada havia decorado uma dzia de versiculos bblicos durante a semana. 
      O ltimo cntico era o de que Cris mais gostava. Ela o aprendera fazia mais de um ms, no estudo bblico dos "Amigos de Deus". Cantou junto, baixinho. 
      
      Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, 
      nem jamais penetrou o corao humano
      o que Deus tem preparado 
      para aqueles que o amam. 
      
      Cris pensou nos seus sonhos, em suas fantasias e desejos. Se as palavras do cntico eram verdade - e eram, j que foram tiradas da Bblia - seus sonhos no 
eram nada em comparao com os que Deus tinha para ela. Sua parte era amar a Deus. E isso era um verdadeiro relacionamento de sonho que comeava no corao e ia 
para a cabea. 
      Cris cochilou alguns instantes, mas acordou de repente ao perceber que havia algum ali olhando para ela. 
      - Quem est a? indagou. 
      - Sou eu, Sara, falou a garota em voz baixa. 
      - O que foi, Sara? Voc est bem? perguntou Cris procurando espantar o sono, lembrar-se de onde estava e quem era Sara. 
      De repente a luz acendeu, Sara se aproximou do banquinho e sentou-se, parecendo desejosa de conversar. 
      - Ainda bem que voc est acordada. Todo mundo foi sentar-se em volta da fogueira, mas eu queria conversar com voc. 
      Cris abriu os olhos lentamente, esperando que se ajustassem  claridade. 
      - Algum sabe que voc veio aqui? 
      - Pedi para a Jessica e ela disse que podia. Ela arrumou o meu cabelo hoje para o banquete. Gostou? 
      Cris olhou para a menina, que parecia uma boneca sapeca. Havia duas tranas finas em sua cabea, uma de cada lado, amarradas com uma fita cor-de-rosa. Parecia 
um halo cado, e o resto do cabelo loiro indomvel de Sara despencava em cascatas. 
      - Est lindo! Sobre o que voc queria conversar? 
      - Bem, voc sabe... disse ela timidamente. 
      Cris lembrou-se de que na noite anterior prometera conversar com Sara sobre beijar rapazes. Deu um grande suspiro. Sentiu impacincia ao pensar que esse "anjinho" 
a tinha acordado para perguntar sobre beijos. 
      - Sara, acho que no  uma boa hora.
      Sara baixou os olhos. Parecia decepcionada. 
      - Quer dizer, no tem outra pessoa que possa conversar com voc? Quem sabe a Jessica? 
      - Talvez, respondeu Sara falando devagar. 
      A menina levantou-se e foi caminhando lentamente. A porta, parou. 
      - Mas voc disse, insistiu ela, que se a gente quisesse entregar o corao a Jesus voc ficaria muito contente de conversar conosco. 
      - Sara! Espere a! Volte e sente-se aqui. 
      A garota voltou e sentou-se, com um olhar de espanto. 
      - Me desculpe. Claro que quero conversar com voc sobre Jesus.  que pensei que voc queria perguntar sobre beijos. 
      - Ah no! disse Sara, o brilho voltando aos olhos. J perguntei a Jeanine. Ela beijou o Nick hoje no mato durante a caada aos conselheiros e disse que foi 
uma chatice. S deu um beijo no rosto quando ele no estava olhando, mas disse que os lbios ficaram com gosto de lama salgada, explicou ela, dando uma tremida de 
frio. Acho que ainda vai demorar muito pra eu querer beijar um menino. 
      - Muito bem, disse Cris, rindo-se.  melhor esperar at que o menino esteja na idade de perceber como  bom tomar banho mais de uma vez por ms. Tambm  bem 
melhor quando a idia parte do menino, e no s de voc. Mas isso s ser daqui a alguns anos. Tenha pacincia. 
      - No se preocupe. Eu vou esperar com pacincia. 
      - Voc queria saber o que  que a gente faz para se tornar crist? 
      - Sim.
      - Bem, e o que voc queria saber? 
      - Como a gente aceita? 
      Cris estava prestes a dar uma longa explicao dizendo que nossos pecados nos separam de Deus, que Cristo fez o sacrifcio que pagou a nossa dvida com Deus, 
que temos a salvao quando nos arrependemos de nossos pecados, e confiamos nossa vida a Cristo. Mas uma vozinha, que lhe vinha da prpria cabea, lembrou-a de que 
os acampados ouviram isso a semana inteira nas pregaes. Sara no estava perguntando por que precisava entregar seu corao a Jesus; perguntava como  que se fazia 
isso. 
      - Deus j sabe o que voc est pensando, Sara. Voc quer pedir a Jesus que perdoe os seus pecados e entre em seu corao? 
      - Sim. 
      - Ento diga isso a ele. 
      - No tem uma orao especial ou alguma coisa que tenho de fazer? perguntou a garota. 
      - No, isso  entre voc e Deus. Seja sincera com ele e diga que est arrependida das coisas erradas que o entristecem. Diga- lhe que voc quer que ele reine 
em sua vida. 
      - S isso? 
      - Sim, porque o que interessa mesmo no so as suas palavras, porque Deus v o que est no seu corao. 
      A menina comeou a chorar. 
      -  o que quero. Quero que Deus entre no meu corao. 
      - Ento vamos orar e diga isso a ele. 
      Cris estendeu-lhe o brao, que estava meio entorpecido, dando-lhe a mo. 
      Em seguida, ento, Sara orou dizendo a Deus que estava arrependida. Pediu que ele perdoasse seus pecados e entrasse em sua vida, e terminou com um "amm" apressado. 
      Fitando Cris com os olhos reluzentes de lgrimas, confessou: 
      - No sinto nada. 
      - Eu tambm no senti, quando entreguei o corao a Jesus. Mas isso no tem muito a ver com sentimento no.  uma promessa. Deus cumpre a parte dele da promessa 
e lhe perdoa. Agora voc tem muitos anos pela frente para cumprir sua parte da promessa e aprender a am-lo cada vez mais. 
      - Acho que me sinto diferente agora. Estou aliviada, porque, finalmente, aceitei. Eu queria aceitar desde aquela noite, quando voc falou sobre isso. 
      Cris olhou para o rostinho inocente de Sara. Sentiu um n na garganta de pura alegria, e disse: 
      - Sabe de uma coisa, Sara? A Bblia diz que os anjos no cu esto se alegrando neste momento, porque voc acaba de entrar Jara a famlia de Deus. 
      
      - Verdade? 
      - Verdade! 
      - Eu no sabia que eu era to importante assim para Deus. 
      - Ah, Sara! exclamou Cris, sentindo uma lgrima de satisfao escapar-lhe dos olhos e rolar em seu rosto. Se voc soubesse! Se ao menos voc soubesse!... 
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      Dezessete Anos
      11
      
      - Ento, de quem  a carta de hoje? perguntou Katie  Cris, quando as duas passeavam no carro de Katie, duas semanas mais tarde. 
      - Da Sara. Achei um carto com o significado do nome dela e mandei-lhe alguns dias depois do acampamento. Sara quer dizer "princesa". Ela diz na carta que 
pendurou o carto na parede, perto da sua cama. 
      Cris olhou para a amiga e percebeu que ela estava cerrando os dentes. Sempre que Katie tinha alguma coisa por dentro, a bochecha apertava em pequenos espasmos. 
      - Ainda acha chato eu ter ido ao acampamento e voc no? perguntou com cautela.
      Na ltima vez que falaram disso, Katie tinha chorado. 
      - Estou melhorando. Ainda bem que suas acampadas esto lhe escrevendo. Parece que elas gostam muito de voc. Espero que um dia chegue a minha vez de ser conselheira. 
Sei que parece loucura, mas  uma meta importante que tenho. 
      - Loucura, no, Katie. Talvez o ano que vem. Tenho certeza de que Deus vai honrar o desejo do seu corao. Principalmente porque voc o honrou, obedecendo 
ao desejo de seus pais este ano. 
      Katie abanou a cabea e mudou de pista, aproximando-se da praia de Newport. 
      - Cris, voc sabe que Deus no age de modo previsvel assim. Mas no parece estranho o jeito que meus pais vem as coisas? Quer dizer, aqui estamos ns, sozinhas 
no meu carro, fazendo uma viagem de uma hora e meia at Newport para passar o final de semana, e eles nem perguntaram onde eu ia ficar, no pediram nmero de telefone, 
nada. Mas quando eu queria ir ao acampamento, eles disseram "no" simplesmente porque tinha a ver com a igreja. Disseram que no queriam que eu me envolvesse demais 
com gente religiosa. Por que tm de ser assim? 
      - Talvez eles tenham visto muita coisa esquisita rotulada de igreja, apesar de que o cristianismo no tenha nada a ver com elas. Pense nas coisas horrveis 
que aparecem nos noticrios; aqueles assassinos, por exemplo, que dizem que foi Deus quem os mandou matar. Acho que muita gente tem idia errada do que seja um cristo 
de verdade. 
      - , voc tem razo. Agora entendo por que o Douglas disse que deram o nome de "Amigos de Deus" ao grupo dele. 
      - Certo. Ouvi o Douglas dizer certa vez que seu principal objetivo na vida  amar a Deus. Deve ser por isso que inventaram esse nome. A propsito, vamos ligar 
para ele assim que chegarmos  casa dos meus tios, para dizer que passaremos l no final de semana. Eu disse ao Ted, mas no sei se ele disse ao Douglas. 
      - Eu falei para o Douglas. 
      - Falou? Quando? 
      - Ah, semana passada. Eu estava conversando com ele. Que horas so? 
      - Voc no me contou. Voc ligou para ele ou ele ligou para voc? 
      - Tem importncia? 
      - Talvez. 
      - T bem, eu liguei. Mas e da? Tem alguma lei contra uma garota telefonar para um rapaz? Sabe que horas so? 
      Cris olhou de novo o relgio e sorriu para a amiga, que estava sempre na defensiva. 
      - So 1:15, e no h nada demais em ligar para ele. Eu at gostaria de ver vocs juntos. 
      - Verdade? 
      - Claro. Ele  muito legal e acho que vocs dois formariam um par legal. 
      - Ainda bem que me recuperei do Rick, acrescentou Katie. O que, por sinal, no levou muito tempo. 
      Um sorriso iluminou o rosto de Cris. Ela guardou seus pensamentos para si, mas logo percebeu que sua amiga conseguia ler o que ela pensava. 
      - Eu sei o que voc est pensando. E est certa. O Rick foi uma dessas fases por que todas temos de passar. Agora que me livrei dele, estou preparada para 
ter um relacionamento verdadeiro. 
      - Talvez com um rapaz chamado Douglas?... 
      - Talvez... 
      - Pois tem a minha bno nessa. E ento, a gente chega l, liga para o Douglas e o Ted, e planeja fazer alguma coisa hoje  noite. 
      Agora foi a vez de Katie sorrir e guardar seus pensamentos para si. S que dessa vez Cris no conseguia ler o que se passava na cabea da amiga. Katie conservou 
no rosto um ar de riso at chegarem  casa de Bob e Marta. Mas comeou a ficar nervosa quando chegaram. 
      - A gente tira as coisas do porta-malas mais tarde, disse Katie, olhando rua abaixo, ao fechar as portas do carro e subir a calada da luxuosa casa de praia 
de Bob e Marta. 
      - O que voc est procurando? 
      - Quem, eu? Nada. 
      Katie deu uma risada nervosa que fez Cris pensar que talvez j estivesse esperando ver a camioneta do Douglas ali. 
      - Vou tocar a campainha, disse Katie, saltando alguns passos  frente de Cris e tocando a campainha trs vezes. Olhou novamente por cima do ombro, e sorriu. 
Ningum veio  porta. 
      - Podemos simplesmente entrar, sugeriu Cris. Afinal,  a casa dos meus tios. Vamos l. 
      - No, espere um pouco, falou Katie segurando-lhe o brao. Eu me sentiria melhor se a gente esperasse que atendessem  porta.
       Novamente Katie apertou a campainha. Tocou, tocou. Era como se estivesse sinalizando, enviando uma mensagem em algum cdigo secreto. Cris ouviu os passos 
de algum correndo s suas costas. Antes que se virasse, a pessoa chegou e cobriu sua cabea com uma fronha azul-marinho e puxou suas mos para trs. 
      Cris gritou e esperneou na escurido. 
      - O que est acontecendo, Katie? 
      - Voc vem conosco, disse uma voz grossa atrs dela. 
      Pelo pulso dava para saber que era um homem que estava segurando suas mos. Seu corao disparara, mas ela no estava com medo. Esse seqestro tinha todos 
os indcios de que fora planejado por Katie. 
      O cara conduziu-a ao longo da escada da frente, para dentro. Parecia que entravam na garagem do tio Bob. Ouviu a porta se abrir e o motor de um caminho dar 
partida. Katie cochichava algo parecido com "atrs". No instante seguinte, Cris foi erguida e colocada na traseira do veculo que imaginou ser a camioneta do Douglas. 
O homem misterioso ao seu lado segurava suas mos, para evitar que ela tirasse a fronha. A camioneta deu r com um solavanco e desceu a rua numa velocidade assustadora. 
      - Aonde vamos? 
      - Daqui a pouco voc saber, respondeu a voz grossa. 
      A camioneta virou to depressa a esquina, que Cris pensou que fosse cair. Veio uma guinada rpida, e mais outra. No tinha idia de onde estavam indo. Antes 
que conseguisse equilibrar-se numa posio mais cmoda, passaram por cima de outra lombada. De repente, pararam. A voz ordenou: 
      - Sai da! 
      Pela primeira vez, estava assustada. Tinha tanta certeza de que o seqestro era alguma coisa que Katie planejara para seu aniversrio, que seria da a dois 
dias... mas eles a tinham virado para um lado e para outro, e ela no tinha mais idia de onde estava. Ficou apavorada. 
      O cara praticamente carregou-a para fora do carro. Cris sentiu outra mo em seu brao, ajudando-a a descer. 
      - Est bem, gente! Isso tudo  muito engraado, disse ela, rindo nervosamente. 
      Parecendo estar caminhando num piso de asfalto, a pessoa que a conduzia fez com que ela andasse em crculos. Depois mandou-a erguer o p, dar um passo para 
cima, outro para baixo e a seguir, alguns passos  direita. Dava para ouvir o mar, portanto, Cris 
sabia que no podia estar longe da casa de seus tios. Mas onde?
      Quem  que estava segurando sua mo e mandando-a andar para a frente com passos de criana? No parecia o Ted. Quem sabe o Douglas? Mas ento, quem estava 
dirigindo a camioneta? 
      Mais alguns passos e Cris pensou sentir o cheiro da loo ps-barba de seu tio.
      - Tio Bob, estou sentindo o seu perfume! 
      Cris ouviu os risos abafados de Katie, mas ningum mais fez o menor rudo. Primeiro, pensou que s estavam ali esse guia misterioso e Katie, mas agora percebia 
que havia mais gente, olhando-a, tentando abafar o som dos passos. Quantos mais? E onde estava ela? 
      - Por aqui, comandou a voz rouca,  direita. Dois degraus para cima.
      Agora reconhecia que pisava sobre cimento. Uma forte brisa do mar tocava seu rosto e ela ouvia o rugir das ondas. Tinha certeza de que havia mais gente, pelos 
sussurros e passos. Parecia sentir cheiro de fsforo tambm. 
      Mais um passo, e algo leve e esvoaante passou por sua cabea. Sensao estranha. Teve vontade de bater nele, mas as mos estavam presas. Conseguiu ter um 
vislumbre de cimento cinza sob os ps quando olhou para baixo, pela abertura da fronha. 
      Onde estou? 
      Com um puxo inesperado, a fronha foi arrancada de sua cabea, soltaram suas mos e um barulho de gente gritou "Surpresa!" Quase caiu. 
      Todos os seus amigos da praia estavam  sua frente, no ptio da casa de tio Bob e tia Marta, cantando "Parabns pra voc", todos sorridentes pela surpresa 
que conseguiram fazer. 
      Ted segurava um imenso bolo de aniversrio, coberto de rosas de glac cor-de-rosa e dezessete velas acesas. Seus olhos azul-prateados encontraram os de Cris 
quando a cano acabou. Com um sorriso, ele disse:
      - Vamos l, Kilikina. Faa um pedido! 
      Respirando fundo, Cris olhou para o bolo. Em pensamento, correu ao arquivo de "desejos" que havia em sua mente e puxou a primeira ficha dele. Em seguida apresentou 
seu pedido. 
      Eu queria poder ir  Europa, pensou, e soprou as velas de uma s vez. 
      Todos bateram palmas. Ted colocou o bolo na mesa. Tia Marta comeou a fati-lo e convidou a todos para que se servissem de sorvete, a gosto de cada um. 
      Cris ria-se em companhia dos amigos, ouvindo-lhes o comentrio sobre como ela parecia apavorada quando lhe arrancaram a fronha do rosto. 
      - Quero saber quem colocou aquela coisa na minha cabea. 
      - Fui eu, confessou Douglas. Vocs chegaram cedo demais e sua tia nos disse para inventar um jeito de atras-la. 
      - Tivemos de lev-la para dar uma volta no quarteiro, comentou tio Bob. Espero que no tenha se assustado demais com a experincia. 
      - Calculei que fossem vocs,  claro. Mas no conseguia imaginar o que estava acontecendo, nem onde estvamos. 
      - Seu tio dirigiu meu carro. No posso dizer que  o mais tranqilo dos motoristas quando se trata de mudana de cmbio. 
      Katie entregou  Cris um pedao de bolo com sorvete de chocolate e uma rosa cor-de-rosa em cima. 
      - Foi surpresa para voc? 
      - S um pouco! Quando foi que planejaram tudo isso? 
      - Sua tia me telefonou semana passada e combinamos tudo. Foi por isso que fingi estar meio desinteressada quando voc me convidou para passar o final de semana 
aqui. Consegui guardar segredo, no foi? 
      - Que massa! Nem desconfiei. Obrigada, Katie. Foi uma surpresa e tanto. 
      - Aquilo ali  para depois, disse Katie, apontando para cima. Cris viu uma pata* cor-de-rosa em forma de porco, presa  cobertura de madeira da varanda. 
Notou que tudo estava coberto de faixas de papel crepom e dzias de bales coloridos. Os enfeites eram de festa de criana de cinco anos, mas ela gostou. Sabia que 
sua tia se lanara de corpo e alma nessa produo. 
      _____________
      * Piata: um saco de papel, geralmente cheio de balas e doces, que se pendura no teto para ser rasgado a pauladas, em festas infantis (N. E.)
      
      Todos os amigos da praia estavam presentes. Helen, Trcia, Brian, Lillian, Douglas, Ted e outros mais. Cris olhou  sua volta e notou a falta do Rick. 
      - Ei, pessoal! gritou Marta, gesticulando, para atrair a ateno de todos. 
      O fato de ela ser frgil e mida no era vantagem neste momento. Ela usava short rosa-shocking e uma camiseta. Qualquer outra pessoa da sua idade pareceria 
rdicula nessa roupa, mas Marta conseguia ficar elegante. Conseguia manter um ar de juventude em sua pessoa. 
      - Logo que vocs tiverem terminado com o bolo e o sorvete, tem uma lata de lixo no canto. As geladeiras nos dois cantos esto repletas de refrigerantes. Qualquer 
hora que tiverem sede esta tarde... Bob e Ted vo armar a rede de vlei, no vo, rapazes? 
      Bob bateu continncia para Marta. 
      - Sai uma rede de vlei! 
      - Abriremos os presentes hoje  noite, depois do churrasco. Esta porta corredia estar aberta a tarde toda, para a eventualidade de que queiram se trocar 
ou coisa parecida. Agora, divirtam-se todos na praia e lembrem-se de passar protetor solar. 
      - Vou tirar nossas coisas do carro, disse Katie a Cris. Ainda est surpresa? 
      - Acho que vou continuar em estado de choque o dia todo! 
      - timo. 
      Quando Katie se virou para buscar as coisas, seu cabelo cor-de-cobre agitou-se como um leque oriental que se abre. 
      Cris no conseguia terminar seu enorme pedao de bolo, e o ofereceu ao Ted. Ele fez sinal de que no cabia. 
      - V com o Douglas. Ele  mais tolerante com rosas de acar cor-de-rosa do que eu. 
      - Ted! Voc vem me ajudar aqui? 
       A voz de Bob vinha da areia, distante alguns passos dali. 
      - Claro! falou e, dando um aperto no cotovelo de Cris, disse-lhe: A gente se v na praia.
      Levou apenas dez minutos para Cris e Katie vestirem seus trajes de banho e descerem at a praia, onde se juntaram ao grupo. Ao pisar na areia, Cris comentou: 
      - Notei que o Rick no veio. 
      - Tem algum problema? indagou a outra. 
      - No sei. Tem? 
      Katie parou, enterrando os ps na areia. 
      - O que voc quer dizer? 
      - Voc no convidou o Rick devido ao jeito como as coisas estavam indo entre vocs? Quer dizer, ele  bastante amigo do Douglas e do Ted. Eles vo lhe falar 
da festa. 
      - Pedi ao Douglas que ligasse pra ele. No quis falar com ele. Ele disse ao Douglas que talvez aparecesse no final do dia. Planejamos esta festa para o dia 
inteiro, caso no tenha percebido. Sua tia  o mximo em planejar festas. Comprou carne para fazer churrasco e ingredientes para smore*  beira da fogueira. Alugou 
um punhado de fitas de vdeo para o caso de algum querer ficar para uma maratona de filmes  noite.  capaz que o Rick aparea mais tarde, mas no tenho muita certeza. 
Se ele vier, prometo ser educada com ele. 
      ____________
      * S 'mores: um doce feito de marshmallow torrado e derretido no espeto, colocado entre bolachas e tabletes de chocolates. (N. da T.)
      
      - Ento, est bem. Desde que ele tenha sido convidado,  o que importa. O que ele vier a fazer do convite,  problema dele. No quero que ele se sinta excludo. 
      - No se preocupe. Pode ser que eu no ache nada maravilhoso ter me interessado por ele tempos atrs... 
      Cris interrompeu-a, virando os olhos ao comentrio de Katie. 
      - Mas tive uma tima professora para me mostrar como se pode ser amiga de um cara depois que a paixonite apagou. 
      - Quem, eu? 
      - No, a "Pequena Sereia". Claro que  voc! 
      Cris lembrou-se de Jessica - excelente instrutora sua no acampamento - e disse: 
      - Sabe, acho que assim que a gente entende o que  o amor de verdade, compreende que por mais que amemos uma pessoa nunca estaremos amando demais.
      Katie ficou pensativa. Virou ento a cabea para o lado, e perguntou: 
      -  isso que acontece quando se faz dezessete anos? A mente fica cheia de ponderaes profundas e de repente voc consegue explicar o sentido da vida para 
o resto do mundo? 
      Antes que Cris pudesse responder, uma bola de vlei cruzou o ar e acertou a cabea de Katie. 
      - Ei! gritou ela virando-se para ver quem tinha jogado a bola. 
      - Aqui! gritou Ted. Voc est no nosso time, Katie. quer jogar, Cris? 
      Cris nunca fora boa em esportes como Katie. Mas era a festa do seu aniversrio. Imaginava que uma pessoa deveria superar seu acanhamento, pelo menos em parte, 
antes de completar dezessete anos. 
      - Claro! respondeu. Em que time estou? 
      - Preciso de voc aqui, disse o tio Bob. 
      Durante a hora seguinte, um intenso jogo de vlei se travou. Cris divertiu-se, mesmo no tendo conseguido jogar a bola para o outro lado da rede muitas vezes. 
Douglas, Bob e mais duas garotas do seu time compensavam o seu fraco desempenho. No final, o time de Ted e Katie ganhou. 
      Ted cismou que o time vencedor teria de jogar os adversrios no mar. E antes que Cris percebesse o que se passava, ele a levou at a beira da gua com a alegria 
de um menino maroto. 
      Cris gritou e esperneou, mas Ted segurava firme. No momento em que seus ps tocaram a espuma fria da onda, ela achou que teria chance de escapulir. Foi quando 
Douglas entrou na brincadeira, vindo de trs. 
      - Viva! gritou Douglas, agarrando Ted e Cris com seus braos de gorila e levando-os num mergulho camicase.
      Os trs amigos subiram  tona para respirar, rindo muito e jogando gua uns nos outros. Douglas mergulhou e agarrou o cotovelo de Cris. Ela se afastou e o 
surpreendeu jogando-lhe gua no rosto, quando reapareceu na superfcie. Outra onda quebrou sobre eles, fazendo-os todos dar cambalhotas at a praia. 
      Parada na areia, a rir-se deles, Cris torcia no corpo a camiseta enorme, colada na pele. 
      - Pronta para mais um mergulho? perguntou Douglas. 
      - Talvez depois, se eu conseguir tirar essa areia toda dos ouvidos. Mas notei que Katie est muito  vontade l na frente. 
      Apontou para a amiga, deitada de bruos sobre a toalha de praia. 
      - No diga mais nada, falou Douglas. 
      Douglas e Ted correram pela areia, tirando o sossego de Katie. Da a pouco, com sua manobra de trs pontos, atiraram-na no mar. Cris deitou na toalha da Katie, 
agora vazia, ao lado de Trcia e Helen, e procurou se enxugar. 
      Parece que certas coisas nunca mudam, pensou, lembrando veres passados nessa mesma praia, quando ela e essas meninas observavam Ted e Douglas aperfeioarem 
a brincadeira de jogar as meninas no mar. 
      Cris esticou as pernas compridas sobre a toalha e deixou que o sol quente de julho secasse a gua do mar. De mos para trs, espalmadas na areia, olhava para 
o mar azul, que reluzia ao sol. A cabea ruiva de Katie apareceu sobre uma onda. Em seguida veio Douglas, com sua risada contagiante, andando na direo dela, em 
meio  brisa marinha. 
Ted, como um golfinho brincalho, deslizou at a praia na onda seguinte. Saindo da gua, virou a cabea para trs e sacudiu o cabelo clareado pelo sol, fazendo todas 
as gotculas descerem por suas costas. Cris assistira quela cena muitas vezes, mas esta foi a primeira em que notou o quanto isso era caracterstico do Ted. 
      Ainda bem que algumas coisas no mudam. Eu queria continuar a ter esta idade, e poder estar na praia, com estes amigos, nos prximos cinqenta anos. No quero 
que as coisas mudem nunca. 
      Cris percebeu que estava desejando quase o contrrio de tudo que desejara antes. Durante muito tempo quisera que tudo fosse diferente, principalmente que seu 
relacionamento com o Ted mudasse e progredisse. Agora desejava que tudo parasse e ficasse imvel para que ela pudesse observar e sentir prazer em cada pedacinho 
de sua vida. 
      Conhecia o sentimento de vazio que fica no corao quando se acaba um romance de acampamento. Conhecia o prazer estonteante de namorar um cara como o Rick. 
E conhecia o tesouro maravilhoso que era ter a amizade "para sempre" do Ted. 
      Cris inclinou a cabea para trs e sentiu o beijo do sol no rosto e no pescoo. Lembrou a bno que recebera do Ted, e que ela passara adiante para a Jeanine: 
"Que o Senhor faa resplandecer o seu rosto sobre voc e lhe d a paz."
      Nesse momento, Cris experimentava a paz de Deus. Sentia o rosto do Senhor reluzindo sobre ela. Com os olhos fechados e um sorriso abrindo-lhe nos lbios, ela 
formulou dezessete silencioso pedidos. Todos relacionados com o Ted.
      
      
      



Fim



1
